Friday, September 18, 2009

Uma noite em Barajas






Enquanto à minha volta,

Toda a gente procura um lugar vago para se sentar,

(um casal de gays, uma fotógrafa com ar de aventureira quase em cima de mim e um inglês com uma mala vazia, várias vezes interrogado pela policia)

Eu acomodo-me com o meu pequeno livro de apontamentos,

E voo no tempo até aquele dia.

Apenas para te olhar de novo, antes que o avião parta.

....

O teu sorriso era como uma flor carnívora que me comia só com o olhar.

Através dos teus olhos,

Sentia-me viajar no tempo e no mundo sem arrancar os pés da terra.

Como se não existisse mais nada, a não ser os teus olhos.

Tempestade de céu, mar e sol.

Os teus cabelos,

Espigas de milho ao vento,

Ou fogo a queimar-me por dentro.

Dentro de ti o Mundo inteiro,

Dentro de Mim, esse Mundo todo a girar.

Gostava de ser bailarina.

E que tu fosses a minha caixinha de música.

Friday, August 21, 2009

Adeus meu Querido Zé


É muito difícil falar da morte, sobretudo quando esta acontece de uma forma tão estúpida, trágica e no início da vida de um jovem com tudo para ser feliz. Perder alguém como tu, significa para mim perder um amigo, um vizinho, um passado, uma parte de mim, a alegria que sentia ao chegar a casa.

Mas mais difícil do que falar do que aconteceu, é continuar a viver sem ti.

Vamos ter muitas saudades,meu Querido.

O Porto vai continuar a brilhar por ti!

Friday, July 3, 2009

À descoberta de Tabucchi

Nos últimos tempos tenho-me revelado um gato preguiçoso que não faz mais nada se não apanhar sol. Na realidade, experimentei três meses árduos de trabalho na capital,em que o pouco tempo que tinha concedia-o à ociosa tarefa de simplesmente olhar a luz de Lisboa, tentar perceber a sua brancura, perceber as "vísceras" de uma nova cidade, como alguém especial que quisessemos conhecer e conquistar. Tal como um gato também bebi muito do sol de Lisboa. Mas não sei se me terá feito muito bem.

De regresso ao meu habitat natural, descobri que tinha fome, fome de livros e novos nomes a descobrir.

Foi então que surgiu Antonio Tabbuchi, escritor italiano. Tem uma estilo objectivo, coeso, irónico, como eu gosto. Uma das características que mais me fascina nele é a adoração por Fernando Pessoa, tendo traduzido parte da sua obra para italiano.Nos seus livros encontramos o cruzamento de elementos da cultura portuguesa e italiana. É interessante ver o resultado.O realismo de quem simplesmente olha e não tem de se camuflar em textos pesados e pretensiosos para contar um país, uma ideia, o ser humano.

Fica o registo do meu regresso à literatura e a estes breves escritos.

Friday, May 8, 2009

Lisboa, 8 de Maio de 2009

Se hoje fosse uma música seria "Changes" de Seu Jorge.

Se hoje fosse um poeta seria Fernando Pessoa

Se hoje fosse um livro, seria um caderno de apontamentos

Se hoje fosse uma personagem,
seria um descobridor

Se hoje fosse uma língua seria a globalidade,

Se hoje fosse um sentimento,
seria a saudade

Se hoje fosse uma força,
Seria a esperança,

Se hoje fosse um lugar,
Seria uma estação de comboio,

Se hoje , ou amanhã, fosse alguma coisa.
Seria uma Viagem.

ps-Para o José de Oliveira, um beijinho:)

Sunday, March 15, 2009

(In)Definição de Saudade

Direitos Reservados

Enquanto escrevo esta carta penso na melhor forma de explicar-te sssa coisa chamada saudade que os portugueses trouxeram do mar, num dia qualquer de tormenta, numa dessas viagens sem fim , até ao fim do mundo. Peço-te agora, meu bem, -para que o significado dessa estranha palavra entre também dentro de ti, - que coloques a tua mão no meu ombro enquanto escrevo, para que vejas como se processa a saudade: as palavras como desejo, carinho, compreensão, insaciedade, sonho, prazer, riso, cor, verão, calor, vão escorrendo das minhas mãos para o papel; por sua vez, o papel transfere as emoções de novo para mim, os meus olhos ficam cheios de orvalho e uma dor de barriga instala-se na zona abdominal; não te rias, é mesmo assim; então, as palavras de novo dentro de mim começam a subir como pequenas borboletas bandoleiras, e vão formando pequenos nós na minha garganta; Os olhos fecham-se, as palavras transformam-se em sentimentos e caem como um rio na minha face; da minha boca soltam-se pétalas vermelhas que voam por todo o lado ; começo a correr atrás delas como louca; mas em vão; porque quando penso que as tenho, que finalmente tenho aquelas palvras todas de volta- o desejo, o calor, a insaciedade, a compreensão, o fogo, a água, a manhã- .....elas desaparecem como miragens entre os meus dedos; finalmente, Sinto os dedos tremerem, e a pele arrepiar-se; é como se tivesses ficado para sempre com a tua mão no meu ombro, e em vez de teres dito “adeus, até logo” , disseste adeus, apenas, adeus, apenas...

Wednesday, February 11, 2009

Um Foto-Poema



Direitos Reservados

Já nasceram as magnólias

Junto ao carteiro dos aliados ,
A árvore mais tímida da praça (mais ainda que a menina da fonte),
Despiu-se para mostrar as magnólias mais lindas do mundo.

Não sei se é a brancura ou a forma labial como se abrem as pétalas,
Mas Tenho a sensação de que sou beijada quando passo por ela.

Ao mesmo tempo, quando atravesso a rua e a contemplo,
Não posso deixar de pensar como foi belo aquele tempo.

Foste vindo, devagarinho, e sem bater à porta,
Entraste e fizeste daquele Inverno o mais doce de sempre.


Gosto de pensar nele, como as magnólias da praça.
Tão lindas e súbitas nasceram,
Como eu me apaixonei por ti sem saber.

Talvez por serem de natureza rara,
As magnólias nascem e morrem em pouco tempo.
Deixando o banquinho da árvore sozinho,
E a memória de uma paixão de Inverno
Entre as cartas de amor que o carteiro guarda...

Filipa Cardoso

Tuesday, January 13, 2009

Amigos desconhecidos

Viajar de avião leva-nos , por vezes, a cruzarmo-nos com pessoas imprevistas de histórias bizarras e a partilhar pedaços de vida entre diálogos de café e filas para o check-in.

Vou contar uma história verdadeiramente hilariante, que se desse um nome soaria a novela mexicana.

Na útlima viagem em que passei uma boa parte da madrugada de um dia incerto no aeroporto de Madrid (antes do nevão que encerrou as portas de Barajas)conheci o senhor José de 70 anos, "un español bueno de Castalla", tal como se apresentou. A partir daí,deu corda à voz e à memória para me contar a sua história até ali, aquela sala de espera de aeroporto.

Contou-me a história de um passado de fome durante a Guerra Civil, numa família pobre de camponeses daquela região, em que para sobreviver teve de ir para a cidade. E , pouco a pouco, foi fazendo fortuna com uma residencial que me soou duvidosa, e propriedades que adquirira em viagens à República Dominicana. Mas o mais tocante na sua história é, como todas as que nos fazem perder as noites de Inverno na cama, o seu tríptico de histórias de amor. Há coisa de 10 anos o Señor José divorciou-se e depois de muita solidão na sua duvidosa residencial, decidiu ir à procura de uma mulher bonita na República Dominicana. E assim começou a grande aventura. Sob a promessa de um testamento gordinho e um contrato de trabalho, o señor josé estabelecia os termos do seu amor e as namoradas pobres lá abandonavam as praias de sonho do seu país, a troco de um casamento e da fortuna prometida na Europa.

Começam então as peripécias de amores,que podiam ser trágicas se não fossem cómicas e vice-versa, dir-se-ia histórias tragico-cómicas :a primeira mulher, deixou-o passado pouco tempo de estar em espanha, depois de uma violenta cena em que a que a quase-esposa quase acaba com a vida do pobre señor José; esta foi a primeira; a segunda prometia ser "una buena mujer" , mas um dia ,depois de chegar a Espanha, adoeceu e morreu; a última (espero) vem a caminho e acompanhada pelo senõr José.No dia em que nos conhecemos, ele viajava para a Republica Domincana para se casar no dia seguinte. Estava verdadeiramente feliz, sorria a todos que o olhavam e fez questão de mostrar as fotografias da noiva actual e também das antigas. Para ele o que realmente o importa é continuar a sonhar como um D.Quixote pela sua Dulcineia.