Thursday, October 18, 2007

A Luz de Lisboa

Foto: Pedro Pinheiro


Há um ano escrevi uma crónica sobre a luz dourada da minha querida cidade do Porto, em defesa daqueles que exaltam apenas a luz branca e "cândida" de Lisboa...

Em Setembro, ironia do destino, a companhia aérea que me levou ao Brasil não me deixou sair no Porto, onde o avião fez escala....Pois é, vi-me sozinha com um malão, no aeroporto superlotado de ingleses antipáticos e polacos fanáticos que vinham para um jogo de futebol na capital.
Eis que encontro duas pessoas muito especiais, o Pedro e a Beatriz, que estavam pacientemente à minha espera. E que surpresa...

E que maravilha fazer-me percorrer por duas mãos já tão conhecidas, pelas ruas da Baixa, pelo Rossio, pelo elevador de Santa Justa, até me deixarem no "Adamastor", uma espécie de piolho com uma bela vista sobre o Tejo. As mesmas mãos que eu levei para conhecer o Porto. As mesmas mãos que me fazem não ter medo do passado, do presente nem do futuro.
E que luz tão branca de facto. uma folha de papel que se reflecte sobre os nossos rostos que estão a mudar...O que vamos escrever neles? mesmo na incerteza, algo sobressai neles: a grande cumplicidade dos nossos muitos ainda jovens anos.


Saudades Lisboa

Gonçalo M. Tavares conquistou o maior prémio literário do Brasil

18.10.2007, Jorge Marmelo

O Prémio Portugal Telecom, de 39 mil euros, foi atribuído por unanimidade ao romance Jerusalém, que já tinha vencido o Ler Millennium BCP, em 2004, e o José Saramago, em 2005

O romance Jerusalém, do escritor português Gonçalo M. Tavares, é o vencedor da quinta edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura, o maior prémio literário atribuído no Brasil. O anúncio da obra premiada foi feito ontem de madrugada, em São Paulo, tendo o segundo e terceiro lugares sido atribuídos, respectivamente, a Macho Não Ganha Flor, do brasileiro Dalton Trevisan (autor que vencera ex aequo a primeira edição do prémio, em 2003, com Pico na Veia), e a História Natural da Ditadura, do também brasileiro Teixeira Coelho. Mais informação(página 10)

Público

"Não voltes a temer o sol ardente....


Nem a fúria do Inverno"

Shakeaspeare

O Outono chegou ao calendário, mas as ruas do Porto parecem ainda quentes e as folhas verdes permanecem agarradas como se não quisesse separar-se dos ramos-mãe. Estão uns amenos 22ºgraus em pleno Outubro e um sol ardente que engana a brisa que vai varrendo pequenas folhas. Um cenário que talvez tenhas sido tu que encomendaste, quando te foste embora. Terás deixado pelas ruas pequenos fios de ouro que os pássaros trataram de espalhar pela baixa, pelas pessoas, pelas casas ainda de janelas abertas, pelos dias que ainda cheiram a ti, à ânsia de ouvir a tua voz ao cimo da rua, atrás do número 152.

Mas quando o Inverno chegar, não me digas nada, faz de conta que o Verão mais bonito do mundo ainda está para acontecer. Não digas nada. Prepara um cenário de rosas, polén, e doces dias para esquecer a falta que tu me fizeste.

Monday, October 1, 2007

Uma questão existencial

Foto: Direitos Reservados



“Os Jardins da Memória”, livro escrito pelo prémio Nobel da Literatura de 2006, apresenta-se como um pequeno baú de histórias dentro de histórias, personagens-fantasma de uma Turquia a viver uma crise de identidade política e civilizacional, dividida entre o Ocidente e o grande legado cultural do Médio-Oriente.
Intercalando entre a narrativa e as crónicas de um jornalista turco bastante influente, Orhan Pamuk aborda temas como o dos antigos escritores, poetas e pensadores turcos e a influência que exerceram sobre as grandes obras da cultura europeia (caso da “Divina Comédia”, de Dante); no fundo, estende uma tapeçaria oriental ao mundo ocidental. Mas Pamuk debruça-se também sobre questões tão humanas e complexas como a da memória, a da busca de uma “identidade” e a importância do houroufismo na cultura turca, uma prática que constituía em ler letras e signos nos rostos. Este é aliás, o cerne do romance: poderemos ser nós próprios, querendo ser outro? De que forma a memória e as histórias contribuem para a nossa identidade? Questiona-se Pamuk na narração do problema da personagem principal: Galip, um jovem advogado que não conseguia ser ele próprio, queria ser como o primo, o influente jornalista Djêlal Salik. Por sua vez, o cronista do Mylliet tinha um outro grande problema relacionado com a perda memória. Devido a esses lapsos, o jornalista terá começado a narrar histórias à irmã, Ruya( mulher de Galip), para que esta registasse as suas memórias. No último capítulo, Pamuk insere uma crónica que em jeito de epílogo conta a história de um príncipe otomano que elegeu como objectivo de vida, tentar ser ele-próprio. Isso depois de ter passado seis anos fechado num pavilhão para se dedicar apenas à leitura: desde Voltaire às “Mil e Uma noites”, o príncipe vai deixar de ser ele próprio para ser um outro que tem as ideias dos filósofos alemães, que fala como o seu antigo professor de francês, que se apaixona pela mulher de perfume de violeta como o personagem do romance que lera.
Por entre os cheiros do café e do rio Bósforo que impregnam a as ruas da Antiga Constantinopla, Pamuk conseguiu de forma surpreendente reunir num romance os estilos da narrativa, da crónica e do policial. F.C.