Friday, August 31, 2007

Um Recife de contrastes

Foto: Filipa Cardoso
(em construção)
Um arco-íris de paralelepípedos colocados como peças de lego entre um matagal tropical de palmeiras e outras árvores de copa exuberante.Este é o quadro de traços realistas que avisto quando acordo do sétimo andar de um prédio situado na zona da Casa Forte. Cá em cima, dentro do apartamento da calorosa família que me acolheu, respira-se a segurança de um arroz com feijão preto a tempo e horas preparado pela empregada de olhos doces. Lá em baixo,um porteiro resguarda o prédio da massa humana que molda as ruas do Brasil de medo,pobreza e tristeza.Como palhaços tristes, lá estão eles nos semáforos à nossa espera com fruta para vender e panos para limpar os vidros escuros que nos esperam. Digo "Nós", porque também eu me faço percorrer pelas ruas do recife num carro de vidros escuros. Como se tivessemos vergonha que nos vissem nas nossas carteiras e óculos escuros, e um medo simultâneo da violência do que não tem e quer ter.Também eu tenho medo. Entre o cheiro fétido das ruas e a maresia de um mar azul, existe o Capiberibi e as pontes que unem uma cidade separada por três ilhas, daí que o Recife seja conhecido pela Veneza brasileira.Junto à margem, as casas coloridas, marca de um passado colonial, alegram o rio em seus reflexos coloridos. Na rua centenas de pessoas circulam, entre vendedores de acerola, tapioca, água de coco e caju. Sente-se a vida da cidade, o frenesim, o optimismo, o sentido da sobrevivência que faz com que tudo o que seja fruto seja vendável, tudo o que se mova, nos faça rir. Bendito Carnaval.

Saturday, August 18, 2007

As Palavras que não digo



As folhas amarelas que piso
São as palavras que não digo.
O vento ,
Uma Penélope triste com seu lenço
Pedaços de nada
Para tecer a tristeza
Camuflar a incerteza
Calar
uma lágrima calada

Tudo,
Para que não vejas
Os fios de água ,
Outrora riso, pequeno rio,
Grito de alegria.
Canto de crianças ébrias,
Entre ervas que picavam as pernas
E calejam os músculos de tanto procurar
O sentido desse sórdido, carnal amar

Tempo de um Nós-não-quebrável,
Agora nó desdobrável:
Na saliva
o mar,
Nos olhos,
a espuma,

No peito
As Plumas ,
Das asas
Deixadas
Sobre a cama.


E tu não vês,
As palavras que eu não digo,
O brilho quebradiço da Lua
Sobre a porta ao fundo da rua.
As palavras que não digo…
A verdade tão crua
Como a lua estar nua
E esta noite ser a última.

Para o David