Thursday, June 28, 2007

Flamenco Jazz

Há um género jornalístico que muito aprecio, a crónica...Porém não é fácil tratá-la, uma vez que exige um olhar crítico e assertivo, e ironicamente da-nos ao mesmo tempo uma maior liberdade literária.Muitas vezes, nomeadamente no que diz respeito a uma crónica cultural, sobre um concerto por exemplo, torna-se bastante difícil definir os limites do que deve ser objectivamente dito e o que é subjectivamente necessário ser dito para que o que foi objectivamente dito, mais do comunicado, seja sentido, cheirado, tocado...

Como é possível definir a música objectivamente, se a ela está associada uma sinestesia tão profunda e variada?

Bem, resolvi arriscar e fazer uma crónica, ou antes,uma interpretação de um estilo Musical ainda pouco conhecido pelo grande público. Um dia posso publicar um pouco da sua história e raízes( curiosamente nasceu nos EUA!), mas para já proponho uma viagem de barco através da poesia, ao fabuloso mundo do Flamenco Jazz.

Escolhi a música "Alegria Callada" De Chano Domínguez, do albúm "In Íman".

Porto, Abril, 2007
“Allegria calada “



A primeira vez que te vi, não te vi.
Ou melhor…
Não sabia ainda do teu cheiro a amor,
Dos teus cabelos pretos, nem dos
Teus olhos cor de azeitona.
O que eu vi, foram apenas as tuas mãos,
As tuas mãos morenas.

……

Os teus dedos,
Quando quedos,
São como duas teclas de piano,
Lisas e brilhantes,
À espera de serem tocadas.

Olhando mais de perto,
Descubro o moreno das praias do sul,
O cheiro do mar e
A espuma nas tuas unhas brancas.

Juntas, as tuas mãos têm a forma de um cavalo
Galopando num tango,
Entre as dunas quentes da areia
E O frio da tijoleira.

Possantes,
Elas seguram másculas,
A cinta doce e volátil
Da guitarra.

Dá-se o encontro.
Da guitarra,
Soltam-se palavras de amor,
No piano,
A água percorre as curvas femininas.
Em mim,
Tiritam os veios,
Da flor vermelha que rasga o pulso.

De repente,
Não vejo mais o piano
Nem as teclas brancas,
A guitarra ou
A cinta de bailarina.
Sou apenas eu,
Entre dois pássaros,
Castanholas
e um céu que é de facto azul.

Tuesday, June 26, 2007

S.João,darling

Foto: Direitos Reservados
Chegaste finalmente.


I Acto

Pela noite fora, lançamos balões, um misto de ternura rude das gentes do norte com um misticismo oriundo talvez da saudade fatalista que achamos que só no sul existe.No céu azul, as bolas de fogo brilhavam redondas como luas a dançar embriagadas.O vermelho que as incendiava, um prolongamento dos nossos corações cá em baixo a vê-los voar. Nesses balões, todos os nossos pedidos mais genúínos. Nesses pedidos,lá no alto,tu.

II Acto

A peregrinação dos nossos pés cansados de subir as ruas tortas e íngremes da baixa até à ponte que o Eiffeil sonhou um dia, talvez numa bela noite de S.joão. Nunca esperou ele que esta sua construção pudesse um dia ganhar vida. Sim vida, a certa altura a polícia teve mesmo de intervir ao início da D.Luís, para que ninguém mais entrasse. Estava de facto a tremer. As pessoas saíam lívidas da ponte.Depois de cuspir labaredas e levar o povo ao extâse, ei-la ,pequena e doce menina a tremer sobre as próprias lágrimas.


III Acto
A loucura. Os martelos hasteados como armas em defesa de um Porto ferido de alma e coração. Na voz a demência, a libertação das lágrimas sofridas todo este ano. No corpo a saudade, esse lusitano estado de alma que não larga as nossas gentes. No peito, rasgado pela dor da tua ausência, a tua memória. A vontade de recuar no tempo. A vontade de ser o Porto novamente uma cidade protegida dos nobres. A minha vontade de ser livre deste mundo constrangido e viver de novo essa paixão proíbida, só minha e tua.E foi a ver o rio, que te revi novamente, que te beijei de todas formas possíveis com o pensamenteo,que vi o dia nascer sem frio, ou medo de te perder.

Esta é a noite de todos os amores e de todas as dores. Vários historiadores como Hélder Pacheco, escreveram coisas interessantíssimas sobre o S.João. Fica aqui a dica.

Monday, June 11, 2007

The real train(um ano depois)

Foto: FC
Existem dois tipos de comboio: os de sonho e os reais. O primeiro nasceu com Watt, com a sua bela máquina a vapor adaptada a comboio, transformando-se depois em brinquedo.O outro, o comboio real é o que dá corda aos nossos desejos, vontades,sentimentos mais secretos, medos, e incertezas. Descobri o comboio onírico durante o encantamento da infância. O comboio real,esse,conheci contigo.

.....
Estação de Campanhã. Sete da tarde. A voz impessoalmente treinada anuncia mais uma partida do alfapendular em direcção a Lisboa. Fiquei feliz por teres vindo.Desta vez, quis presentear-te com um vinho do Porto, um dos antigos da minha família. Não sei se chegaste a ler a carta que coloquei junto da garrafa. Terás lido ainda no comboio? No aeroporto?Ou muito tempo depois, num Natal com a família, a milhas de distância de Portugal? Independentemente do tempo, espaço ou motivo, espero que tenhas percebido o sentido e talvez esse se torne uma forma de ubiquidade entre os dois e não de uma banal inconformidade.Na folha rabiscada na minha caligrafia eternamente adolescente, falo-te na filosofia do vinho com o nome da cidade que ambos amamos.Um vinho que podia ser um caleidoscópio, um vestido vermelho-uva, mistura perfeita do Douro, dos gatos,dos livros, das ruas sem fim,dos encontros, dos desencontros, dos beijos atirados em dedos, dos dedos a calarem beijos, das palavras, do silêncio, de ti ,de mim, de ti sem mim, de mim sem ti.... Dou-te um rio: no lugar dos sedimentos, deixo-te todos os sentimentos que fazem o meu amor por ti. Por isso te digo no Post Scriptum para beberes vinho do Porto “every moments of your life”. Mas mesmo que não tenhas lido a mensagem, alguma coisa nos teus olhos me disse que mais tarde ias entender.Percebi isso quando pelo vidro do teu vagão vi correrem duas estrelas azuis. Sorria-te, um sorriso branco, com uma calma que nunca antes tinha sentido à tua beira.Depois fui andando decidida, no sentido contrário à linha, como nos filmes em que não se quer ver a pessoa querida ir embora.Mas se o fiz, foi inconscientemnte. E magia, estava radiante , como uma menina que acredita no final feliz das histórias de amor. Provavelmente, tu eras a pessoa mais triste daquele comboio. Eu, a rapariga mais feliz do mundo daquele cais subitamente só, povoado apenas pelo vapor que não cheguei se quer a ver. Era um dia de Maio, solarengo. Pensava que a Primavera tinha chegado finalmente contigo e que desta vez tinha vindo para ficar.Foi a última vez que te vi.

Para o Gary

Saturday, June 2, 2007

Pianos de mim





(Para a Beatriz) A minha prima pediu-me para neste dia publicar uma carta. Porém decidi escrever esta pequena reflexão sobre a minha ainda curta existência. Para isso tive de recorrer a muitas "mãos" e à música do piano que redescobri em mim. Este texto foi escrito para todas as pessoas que fizeram da palavra amor uma nota de música, jamais esquecida dentro de mim.

(Para Eduardo) Não resisiti a roubar-te a imagem do lago, o lago da minha querida infância...Obrigada peixinho vermelho.

Pianos de mim

Já sentia o que senti com o livro de José Luís Peixoto, “Cemitério de Pianos” há muito tempo. Foi preciso ter passado pela adolescência e pelas múltiplas metamorfoses de mim, em que eu era apenas um corpo de passagem, sempre em construção e desconstrução, para novamente una e cheia de água poder sentir a força de um mundo passado que me habita e me faz ver por dentro sem precisar de um espelho. Terá sido com o filme, “Pianista”, com os nocturnos frios de Chopin que uma mola dentro de mim desactivou toda a catarse de lágrimas que durante muito tempo estiveram adormecidas. Terá sido com Kate Jarret e a sua “My song”, que aquela torrente quente e salgada passou pela minha boca e desceu até às mãos e aos olhos como sangue a desfiar. Terá sido recentemente com Flamenco Jazz que descobri que me apaixonei pelas mãos morenas do Xavier quando escreviam ao meu lado e pelos dedos brancos de mármore e ternos do meu professor de inglês.

Sempre o quente e o frio. Tanta melodia sem voz, mas em cada tecla uma mão de palavras, o meu quarto antigo, a minha boneca preferida, o jardim com o lago de peixes vermelhos onde aprendi a andar, a rua que percorria levada por uma mão até ao lugar onde ouvia palavras dentro de teclas e coisas a acontecer nos meus passos de ballet, tão pequenos e soltos ainda…. Lembro-me da mão grande e protectora do meu pai quando me deixava do outro lado da rua da minha casa. Lembro-me da mão rosada da Dona Rosa, carregada de anéis e gordurosas de carinho quando me vinha buscar ao infantário para o ballet. Lembro-me enfim das minhas mãos na barra de madeira. Lembro-me de que tinha de ter os dois braços abertos em oval e os dedos como se fossem agarrar castanholas. Lembro-me das mãos finas do pianista bonito por quem todas nós nos apaixonávamos no dia dos exames. Lembro-me das mãos duras da examinadora inglesa sobre uma mesa onde só chegava em bicos de pés. Lembro-me das mãos da minha mãe na minha cara e da segurança e do amor que deixava em mim sempre que me tocavam. Lembro-me das mãos do meu pai a comer e a calar as minhas mãos que queriam contar as palavras que tinha aprendido naquele dia na escola. Lembro-me das mãos morenas do meu irmão a brincar com as minhas pequenas e brancas. Lembro-me das mãos da Lena, a educadora, e do seu pulso fino cheio de pulseiras que quando eu a chamava vinham até mim num doce tilintar.


Mais tarde, quando me despedia da última Filipa adolescente e dos beijos do primeiro namorado, a rua do Instituto de inglês, as árvores que dançavam antes de desaparecer na porta e estar diante do professor a tremer de amor. Amor. A mesa de madeira e as mãos finas do Xavier a escrever sobre a revolução francesa ao meu lado. Paixão. As mãos do meu primeiro namorado a segurar um lápis e a desenhar corações com o meu nome. Sonho. As mãos das minhas amigas a segurar-me em noites ou manhãs mais difíceis de suportar. Amizade. As mãos da minha mãe a lambuzarem o meu cabelo de amor, numa momice de mãe. Tudo. As mãos infantis e cheias de sonhos da minha avó sobre os meus cabelos. Cumplicidade. As mãos tímidas do meu irmão a quererem dizer tudo ao mesmo tempo. Inseparabilidade. As minhas mãos escondidas pela manga do casaco ou pelos bolsos, a esconderem todas as lágrimas que não solto. Nascimento.

Tantas mãos que hoje sinto dentro de mim. Tantos sorrisos, tantos choros, tantas histórias, tantas verdades que só existiam em mãos e nunca foram ditas, tanta música, tanta luz e escuridão, tanta coisa que só consigo dizer a chorar quando escuto um piano e as palavras das mãos dentro de mim.