Monday, April 30, 2007

Um encontro com Cervantes

Foto: Direitos Reservados
Praça de Cervantes, Santiago de Compostela

Há cerca de umas três semanas fui conhecer Santiago.Uma cidade muito bonita, bastante ao estilo de Guimarães e Braga. A catedral insurge-se imponente, no seu estilo barroco, marca de uma História de muitas histórias de pessoas, épocas, pestes, amores, divisões,paixões´, inquisição, morte, vida... Mas o melhor em Santiago são as ruas: dá vontade de nos perdermos e encontrarmos por acaso um jardinzinho, numa espécie de claustro público, com flores vermelhas e tocadores.Dá vontade de contornar com os dedos os arcos de pedra do túnel por onde passo. Foi nesse acaso que encontrei a praça de Cervantes, assim quase como me perdendo. Fiquei feliz. Foi um belo encontro. De facto, é o acaso que mais me encanta em lugares novos. Foi ao acaso que me apaixonei perdidamente por Itália a cada esquina que cruzava, a cada janela que se abria nos típicos prédios antigos de portadas coloridas e flores a cair pela janela, apaixonei-me pelo voo de uma pomba na bela praça de s.Marcus, apaixonei-me pelo caricato, pela luz que em cada cidade é diferente.


Milão

A maravilhosa obra de Miguel Cervantes, mais do que um clássico d literatura mundial, é qualquer coisa de delicioso...Pensar como alguém já no século XVII foi capaz de protagonizar tao bem uma novela realista, de um humor mais que dantesco, condimentado pelos costumes daquela região da Mancha,oscilando entre a visão de um Sancho Pança ignorante, arquétipico de um camponês analfabeto, gordinho e crente nas promessas do seu amo e uma visão idealista, sonhadora de um D.Quixote letrado, que de tanto ler romances de cavalaria acaba por enlouquecer e achar-se também ele um cavaleiro andante destinado a proteger as donzelas e princesas, a matar dragões e outras figuras mágicas criadas por D.Quixote. Uma delícia.

Cavaleiro andante

Solta-se o ego
Do louco D.Quixote
No peito traz a sorte
E a espada de um amor cego

Vai andando,
O cavaleiro andante,
Pelas estradas errantes.
Não sabe dela,
Da bela Dulcineia
Mas sabe,
Que se parar
Param os moinhos
E o coração de andar

Andar, amar
Amar e sonhar
Sonhar
Com ela,
Com a vida
Que teria
Se não fosse Poesia

Mas Cavaleiro Andante não chora
Seu cavalo Rocinante
Chora por ele,
Num doce quebranto
Enquanto ele,
Ri-se na imensa loucura
De ainda ser capaz de
Amar
E de conquistar.

Filipa Cardoso

Friday, April 27, 2007

San Jordi, dia da Rosa e dia dos namorados na Catalunha

Foto: Direitos ReservadosFoto: Direitos Reservados




Pensava que o dia dos namorados era aquele dia 14 de Fevereiro, um dia em que se dão rosas que não cheiram e corações de vidro que se partem logo. Porém, tive a sorte de conhecer o Xavier,magnífico exemplar da beleza típica e graciosa dos morenos do sul.Poeta e sonhador também, como bom filho de Cervantes. Vindo de Tarragona, Catalunha, Xavier deu-me a conhecer o dia dos namorados na região por altura do Verão.Era Julho e as ruas do Porto gozavam daquela calma apaixonada. A luz amarela, as palavras e as ruas, tudo parecia confluir num perfeita simbiose a cantar como um rio canta entre as pedras e as curvas do caminho. Hoje, dia 23, evoco essa alegria calada e a rosa vermelha que me trouxeste em representação de San Jordi para contar sucintamente essa lenda: certo dia, a donzela mais bonita do reino é raptada por um dragão.São Jorge( san Jordi),valoroso cavaleiro, vai resgatar a bela senhorita. Este consegue vencer o dragão e no lugar onde foi derramado o sangue da fera, nasce um roseiral.Daí que esse seja também o dia da rosa.

O dia é comemorado a 23 de Abril, data em que se celebra o livro, em homenagem a grandes escritores e poetas como Cervantes e Shakespeare que morreram igualmente a 23 . Xavier escreveu-me nesse dia. Disse-me que os rapazes dão rosas e livros às raparigas e passeiam entre o sol e os cafés.Deu-me vontade de estar lá também.

Thursday, April 12, 2007

Saudades de um Beija-flor

Foto: Direitos Reservados


Gosto de quando te calas

E sorris, assim calado,

À espera de um beijo meu.

Gosto de quando te calas

E me abraças com as duas meninas

Dos teus olhos.

Gosto de quando te calas

E soltas palavras meigas dos teus dedos,

Palavras de um beija-flor

Ao de leve passeando,

Pela minha perna.
….

E Talvez me amasses ainda,

Se te dissesse,

Que de olhos fechados,

Podia ouvir o beija-flor

Tactear dentro de mim.

Monday, April 9, 2007

O Porto em poesia

Encontrei na fnac, na míngua prateleira destinada à poesia, um livro fabuloso de poesia dedicada ao Porto.Trouxe parte deste poema comigo:


In Carta de Agosto
(...)
' Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto

[tempo

como: Amo-te muito, meu amor, que saudades, vem depressa

E outras palavras ainda mais gastas que digo

[todos os dias:

'Foda-se esta merda( somos do Norte e e não somos castos nem

cautos na língua)


(...)

Inês Lourenço

Sunday, April 8, 2007

Sometimes in April

Foto: Direitos Reservados

1994, Rhuanda, a tensão aumenta. Os hutus querem vingar-se dos Tutsis,antigo povo priveligiado pelos belgas, aquando a colonização. Acontece a tragédia...
Não sou capaz de escrever. Qualquer tentativa de descrever o massacre soava a falso.
Para quem quiser saber o que nunca soube e a comunidade internacional(os media também) calou, veja o filme 'Sometimes in April'. Se preferirem uma versão mais hollywodesca, aconselho "Hotel Rhuanda",muito bom.

Monday, April 2, 2007

Sushi,amigos, rosas e sangue

Um jantar que começou a ser feito as 20h e só ficou pronto a meia noite.Nunca pensei que o peixe cru pudesse ser tão exigente.De qualquer forma, ficam os parabéns ao João. Tem uma paciência em tudo na vida. Só nao entendo aquela do meu sushi de meia alga não servir.estava realmente bom!

E a noite como todas as que são especiais( especial, no sentido clínico da palavra),começa com o nosso vinho alentejano e conversas sobre nada e sobre tudo. à meia noite chegam finalmente os canudinhos de peixe, arroz e afins. Tudo muito bonito. O vinho tinto deu lugar ao chá verde. Mas eis que de repente, um trago amargo no copo( talvez o resto do nossa água dionísica) leva a conversa para o mundo dos Media,esse mundo que todos condenam e usam o cliché " de que tudo o que dizem é manipulado". >De repente penso em nós...Dois arquitectos,um engenheiro, duas ainda no secundário e duas, que na hora, valeram por um batalhão inteiro de Peter arnett's no vietname, atirando-nos com unhas e dentes aquilo que mais niguém no mundo acredita: a ética e honestidade de uma pessoa. Depois chegam as palavras menos doces de ouvir, como me dizerem que vou ser uma no meio de tantos, vou também vender ´histórias e contar histórias...Gostava de saber o que sabem as pessoas do mundo sem os mais miseráveis dos jornais( metro, correio da manhã) e a mais sensacionalista das televisões. Para quem nao tem acesso a cultura,o que é compreensível tendo em conta o baixo rendimento per capita e o nível de abandono escolar...Mas caramba, aqueles que têm acesso, tenham o bom senso de perceber que muitas vezes o jornalista nao tem poder, nem acesso as fontes para apurar toda a verdade. Se inventa, é com certeza por que nao tem ética e nao é honesto. é pouco provável que isso aconteça,há sempre um editor e a lei prevista para casos de difamação, manipulação...Mas para essas pessoas que ainda dizem que tudo é manipulado e que é o jornalista o culpado, peço que se sente e veja que a "máquina, o sistema" que escreve a notícia é humano, tem família, tem-se a si e só a si para sustentar. Nao tem o sistema. Que me dá o Estado se difundir o boato de que sócrates pode nao ter completado o curso? Que me dá? Dá-me o suficiente para me calar? Manipulação?

Depois....depois sei que me cortei no dedo. Estreava pela primeira vez a minha camisa branca victoriana comprada por uma pechincha em Londres. Só dei conta mais tarde, na ribeira. O sangue do dedo deve ter subido pela manga, á medida que também a discussão subia e a ferida dentro de mim também. Eis-me então, de camisa exangue, copo nao mão e uma rosa na boca,deixada ao acaso na mesa do bar. Provei uma pétala. Era amarga.

As discussões com amigos sobre o futuro e respectivas futuras profissões sabem ao fundo de um copo cheio de borra. Prefiro as vossas rosas.

"I cannot resist to the roses of my friends"
Ben Harper