Friday, March 30, 2007

Como se fosse possível haver manhãs sem ti.

Foto: FC
“I don’t need no money, all is need is my baby”
Canta o Otis Redding para me acordar
Espreguiço-me como um gato e respondo-lhe:
and I don’t need no mornings, all I need is my baby



A manhã de tão perfeita,

Traz-me a luz branca quase húmida

Numa vela em que a ponta

Dos teus cabelos ou cigarros arde

Sobre mim.

E esta manhã chegou tão triste

E bela, como se fosse possível

Haver gatos na varanda ao sol

Como se fosse possível

Haver pessoas no metro a falar da “manhã que está tão bonita”

Como se fosse possível

As flores lançarem as corolas sobre as abelhas

Como se fosse possível

O cheiro do café e os beijos dos namorados.

Como se fosse possível

Os pássaros e a música das árvores como um rio

Como se fosse possível

Como se fosse possível haver manhãs sem ti…

Monday, March 26, 2007

Chat de mon âme

Foto: Direitos Reservados
Soneto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e a morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


Vinicius de Moraes

Florença, 11.1963

in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

Agradecimentos ao sonetista, conterrâneo da poesia

Sunday, March 25, 2007

O amor é uma roleta russa

Foto: Direitos Reservados
Foi na noite que te encontrei. É Na germinação do outro dia, entre o êxtase de um e o cheiro fétido do que virá, que nos encontramos...Talvez nunca te volte a ver, talvez a nossa conversa seja esquecida, talvez tenhamos a mesma conversa com outra pessoa e já não sabemos se as palavras que estamos a dizer foram as tuas ou as minhas . É assim que a noite acontece. Não sei nada de ti.Não sabes nada de mim. Os dados estão lançados. De repente, chegamos ao amâgo , e falamos dos nossos amores,dores, medos, de repente aquela pessoa é portadora da minha palavra. O facto de falarmos numa mistura de francês e inglês também ajuda...Muitas vezes temos medo de ouvir na nossa língua o que nunca seríamos capazes de proferir.É como usar uma máscara. Essa é uma das justiicações para o fenómeno transnacional das relações. Mas continuando....Entre teorias, (porque nós jovens achamos que o Mundo ainda está por descobrir...Desilusão total quando afinal descobrimos que toda a gente já sabia isso, menos tu), entre palavras atiradas ao ar, entre um cigarro, uma voz mais exaltada, chegamos lá...Eureka! afinal é isso...O amor é uma roleta russa. Uns têm sorte outros não. A roda sempre a girar, a girar...Vem-me a cabeça o "Jogador" de Dostoievsky, mas isso, só na manhã seguinte...Engraçado como "analogamos" as coisas muito tempo depois.Li o livro há mais de um ano..Parece que fizemos uma descoberta. A pessoa vai falando do quanto está dividida...No fim, entre um gole de uisquy e um pousar de copo fatal, diz " I don't have nothing". è entao que eu digo: "and me?"...E à nossa volta há gente feliz, casais a planear viagens...Somos jogadores e vemos tudo de fora. Somos jovens e sabemos que é tudo flutuante, queremos o mais depressa possível saber o que está depois do rio. Mas a vida é um rio, não somos unos, somos os que já nos tiveram e os que ainda vamos ter.O amor é esse jogo.às vezes o vermelho, outras vezes o preto. "Life is a Cabaret", canta o Amstrong. O Siddharta também sabia que o amor era isso. Ele sabia-se incapaz de amar uma só pessoa. Pode talvez ser uma forma de egoísmo, essa procura constante de ganhar mais da vida e das pessoas, sem pensar que elas vão ficar para trás e que estamos a roubar um bocadinho delas. Aposto aqui e ali, passa um belo italiano, um rapaz de livro na mão e olhos meigos, um jornalista de olhar aventureiro...Passam...Passam e vão...Como os "comboios param e partem"(Virginia Woolf), como tudo continua a ser jogado.
Se sabemos que o amor é isso, porque ainda assim sofremos?

Sobre a ausência, a onda da manhã, os passos macios na areia, a linha contínua do horizonte, a linha que com pedrinhas frágeis tentamos inutilmente atingir. A onda sobe e desce.
a onda sobe e desce. A onda sobe e desce....

Tuesday, March 20, 2007

O dia hoje é Poesia

Para este dia tão especial, escolhi o meu poeta preferido,autor do meu poema de eleição. Leiam-no a media voz. Não se assustem com a clareza das palavras: claras, límpidas,certeiras. Ao ouvir o poema ouço água dentro de mim, riachos, pequenas brechas num jardim tão escuro como é o da alma.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade


Mas hoje, também faz anos uma pessoa muito especial.O Pedro.Um belo árabe de coração nortenho. Um suspiro deixado pelo vento, uma voz de cafuné, um sorriso que encanta todos os pássaros do Palácio. Um amigo para sempre.

para ti:


O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Sunday, March 18, 2007


Manifestations pour la paix en Irak
LEMONDE.FR | 19.03.07

© Le Monde.fr

"O Beijo" de Klimt

Um beijo diferente dos outros
Início do século XX. Klimt, um amante da mulher, quis com este quadro, representar a sua emancipação, a sua satisfação enquanto ser igual em direitos e vontades. A mulher já não oferece a boca para beijar o homem, ou tem os lábios entreabertos a sugerir um beijo, como acontece noutros quadros do pintor. Está de olhos fechados, com um ar feliz e senhora de si.

Saturday, March 17, 2007

A Primavera chegou.

Boas notícias da Polónia...A garrafa de Porto foi finalmente aberta, ao som de um "Fado das dúvidas", e um calor sem dúvida lusitano. Pensar como as nossas coisas e sentimentos podem estar num país tão distante e diferente. Pensar nisso é fantástico, sufoca-nos com a ubiquidade quase surreal.Pensar nisso é encher-me de felicidade e saber que agora mais do que nunca sou uma referência espaco-temporal desta cidade, país...Pensei que num ápice a garrafa desapareceria. Mas afinal, andou 10meses contigo a passear..

Hoje fazem no Porto 21º. O polén das flores cai de mansinho como flocos de neve.
Ouço também agora Madredeus.Estás Tão longe e tão perto.De todas as dúvidas que tenho, serás talvez a maior. Prefiro a tua incerteza e alimentar-me da tua memoria, do que a certeza de não te ver nunca mais. De qualquer forma, haverá sempre um vinho e um país por visitar.

A vida é bela.



Fado Das Dúvidas
Madredeus
Composição: Pedro Ayres Magalhães
(...) Não sei amor onde andarás
Pergunto o todo o que te vê
E nunca sei como é que estás
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor
Diz-me tu, que eu nunca sei
Se voltarei ou não para ti
Se ainda quero o que sonhei

Friday, March 16, 2007

Involve me!

"Tell me, and I will forget.
Teach me, and I will remember.
Involve me, and I will learn"

Benjamin Franklin

"Involve me", in every senses of the word;)

Saudade , um pássaro sem nome, país ou língua.


Fronteiras de mim

Hoje,aqui em Veneza,
Sou as pontes
E as mil pombas
que em mim voam.
Corro,
Em cada esquina
um amor,
Paixão invisível.


A praça é a de S.Marcos.
O tempo ,a Juventude.
O relógio ,cor do céu,
Parou para nós o tempo,
Num dourado eterno.
Deixei de ser o leão
De asas aladas[1].
O meu peito é água,
A respirar
A Dor e a Saudade,
De te ver chegar e partir
Dessa Europa sem fronteiras.

Hoje,
sou as pontes de Veneza,
Dentro de mim,
Partidas.

[1] O leão com asas é o símbolo de S.Marcos, Santo de veneza
Agradecimentos à minha queridíssima Marta, que muito me ajudou na tradução e também ao meu professor de inglês, que no seu pragmatismo romântico me ensinou a não ter medo da chuva.


Borders of me


Today, here in Venice,
I ‘m its bridges
And the one thousand doves,
Inside me
Flying.
I run,
In each corner,
A love,
Unseen passion.

The square is the Saint Marcus one.
The Time, the youth.
The clock , colour of the sky,
Stopped the time for us.
In an eternal gold.
I’m no longer the winged lion[1],
My chest is water,
Breathing the pain and ‘Saudade’[2]
Of seeing you come and go,
From this Europe without borders

Today,
I’m the Venice bridges.
Inside me,
Broken.

[1] The wigged lion is the symbol of Saint Marcus, the saint of Venice.
[2] Saudade is a portuguese name which could be translate by “miss someone, something , somewhere”

Thursday, March 8, 2007

Um presente chamado Neruda

Foto: Direitos Reservados
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.






Pablo Neruda