Wednesday, February 28, 2007

O dia Seguinte. Reflexões

O dia seguinte
Reflexões


Confeitaria do Bolhão,fim da tarde. Estou sentada nos sofás ao lado de um grupo de senhoras, tratando-se por “Donas” e oferecendo sorrisos de meninas- sorrisos que não vejo nas meninas de 16 e 17 anos que afugentam a rua de S.catarina com a sua indiferença líquida e efémera- , sorrisos que embalam os ramos de flores vermelhas que pintam as paredes verdes.Entra um cantor ambulante de traços ciganos. O som de uma flauta, uma balada italiana que faz dançar os átomos da sala e estremecer o meu cabelo que saiu do chapéu. Uma súbita alegria invade-me, como se um Orfeu tivesse entrado naquela sala para anunciar a Primavera.Estou sozinha, não há razão para o súbito alegrato, pode ser da presença das senhoras felizes ou a lembrança de uma Itália feliz. Não sei. Mas afinal é possível.

Hoje é o meu primeiro dia depois de tudo.
Acabam de entrar duas raparigas. Uma delas, uma antiga colega de trabalho. Discorre na perfeição sobre Kant e sabe um pouco de tudo. Daria uma excelente advogada se não fosse tão revoltada. Ao lado dela, a namorada do amante. Riem-se numa cumplicidade feminina que exclui do seu universo de saldos e mestruações toda e qualquer presença masculina.
A vida é irónica....No fundo sempre foi assim, os flirts da Belle Époque, do século XIX, sujeitos ao abafo das sombrinhas cor-de-rosa.
Ao meu lado as senhoras elegantes começam a trautear uma velha canção. Dizem que vão embora. Também tenho de ir não tarda. A Rute deve estar a minha espera.

Sandra, isso mesmo, o nome da possível advogada amante do namorado da amiga que está sentada ao lado dela. Como o Mundo é tão pútreo....Pergunto-me, Onde param as relações?Um dia conhece-se, conhecimento superficial, no outro namora-se e no outro acaba-se. Uma Versão mais Queirosiana, num dia conhece-se, no outro fazem-se juras de amor eterno, depois o mistério, o tédio e finalmente o amante ou a amante que vem quebrar o tédio.Este Mundo assuta-me e entristece-me. Prometi a Amanda que não ia ficar triste, por isso continuo.
Lembro-me de um Livro do Kundera, “A lentidão”, em que ele dizia que quanto mais rápidas as coisas acontecem, mais rápido é o esquecimento. Isso justifica as muitas amnésias de noites de bebeira, flirts,etc. Esta noite choveu e eu chovi também. Mas hoje o dia brilhou e limpou tudo com um sol que apenas traz as boas memórias. Enquanto isso, tudo é lento à minha volta. Conversas, empregados circualam, pessoas, viajantes entram. Sinto que vejo tudo pela primeira vez. Isso é bom.

Passamos o dia, eu e a queridíssima Amanda numa sessão solene do IPP que fomos cobrir para o Jup. As palavras do Presidente pareciam objectos de tortura para a audiência. Tudo muito formal, com um palavreado de jazigos, medidas, planos, etc...
Foi este o dia seguinte.
Cheguei à faculdade e encontrei o sorriso do Manel. De visita, pois trocou corajosamente jornalismo por um ano a estudar para tentar Medicina. Um sorriso cúmplice, que nos faz encontrar a pessoa tão poucas vezes, e saber tudo nesses starrings de momento. Não estive com a tribo, entenda.-se, a Luana e a Vanessa. Mas curiosamente foi até bom. Apercebo-me cada vez mais que nestas alturas mais do que os amigos, é a própria vida, a rotina, que nos ajuda a superar, são as ruas, o quiosque vermelho lá no cimo, o cego da concertina na esquina, o cheiro, a luz, as janelas, o ar do Porto. Tudo me faz sentir tão grande, tão só, mas tão Eu.

Apetece-me um cigarro. Devo pedir à amante do namorado, ou à namorada do amante da amiga?Não. Não me apetece falar e sorrir um sorriso que não é o meu. Hoje mais do que tudo não quero ver pessoas. Quero sentir as ruas e as ambiências. Hoje estou nua. Como água, só quero ruas por onde passar e deixar-me fluir.
Está na hora. Vou para o Asa, o café dos intervalos do Cambridge. Já lá não está o Senhor Álvaro, o empregado das gravatas dos Mickeys. Mas está um não sei o quê que me abraça, que me completa, e que faz deste dia, o dia seguinte.

Sunday, February 25, 2007

Milão, Agosto 2006


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Mário Cesariny




As cartas que nunca te escrevi

A Cyrano de Bergerac
Junho 2005



O S.João é o grito de uma pessoa possessa, louca de amor ou talvez apenas de dor.
Uma noite mágica. Linda.
Pela neblina da ribeira e o negro veludo do céu , viajamos até a um templo dentro de nós. E lá, nesse sítio escuro, de paredes românicas, tudo se desfaz em lágrimas humanas. E em catarse, toda a nossa dor, os pequenos fantasmas que escondemos dentro de nós, começam a suspirar no ar que respiramos, nos beijos que roubamos nas ruas estreitas, nos copos que escorregam turvos na boca que não sabe.
E assim, nesse compasso triste, vamos abrindo o corpo à noite e a alma à brisa rude do rio Douro.
Pouco a pouco, o templo volta a erguer-se, a D.Luís sorri em arcos de luz e as gaivotas,no céu escuro, acenam-nos em piruetas de sonho.
Devagar, a noite vai caindo nos nossos ombros e a manhã surge na nossa boca.

Junho 2006
Um ano passou...
Agora,
olhando sozinha o rio, vejo sombras de asas no lugar dos teus braços, vejo o teu sorriso rasgar-se no vento, e vejo nos gatos que passeiam nos telhados o teu perfil melancólico.
Vejo-me também a mim reflectida na água de prata
Sabes, acho que a minha sombra cresceu. Estou maior em desejos e vontades.. Os meus olhos de menina já não temem uns olhos de gigante como os teus. Porque agora sou tão grande como tu. Maior ainda, porque também o meu coração cresceu e tornou-se muito maior que o teu. Maior, porque posso amar-te sem te ver, posso amar-te sem te tocar, porque posso amar-te mesmo sabendo que não me amas.
É triste a paisagem sem ti. Mas como me ensinaste, “new rains, new loves”.Magia ou não, isso aconteceu de facto. Agradeço-te por isso. Por teres chegado para me mostrares que a beleza da vida está no milagre de vermos a chuva cair, no milagre de nos envolvermos com alguém impossível, no milagre de ver sombras de gaivotas, no milagre de ver o dia nascer, no milgre de acreditar no amor.

Post Scriptum- Pena que já não vejas mais o que eu vejo. Mas obrigada por me teres feito ver o que vi há um ano atrás. E vou ver para sempre.

Sunday, February 18, 2007

Quando perdi a carteira e acabei a cantar Space Cowboy

Sábado, chuvoso, triste, pensamentos, sentimentos contraditórios, vontades, frio, calor....bah!...Pano de fundo de um belo dia de azar. Saio para me inscrever no ginásio.Optimo. Ver gente fútil, estar numa piscina de água quente, flutuar na ilusão de estar em Veneza completamente longe de tudo, é melhor ke tudo num dia frio e cinzento. Eis que a tragédia, prefiro dizer tragicomédia, e em frances porque tem mais pinta, tragicomédie, começa....Estou já no metro, a correr a chuva, sim eu sei, "new rains, new loves", mas nesse instante os meus instintos eram mais alimentares ke outra koisa e aquele cheiro irresistível do pão quente do Marquês...hm....ok...Depois, 3ºacto, consumou-se a tragédia: a minha carteira desaparece, com tudo e exactamente tudo, bi, passe, cartao recentemente tirado do ginasio, 2oeuros, cartao de credtito, 2fotografias antigas, o nº do nib, enfim...a minha vida resumiu-se a uma carteira...cor-de rosa!ah, un petit detaille, em francês fika mais subliminar(subliminar nao sublime, o proff de psico dava-me um 10,1 se visse isso), nem se quer dei conta da falta...Não estou para pormenores que so à Agatha Christie e aos homenzinhos com medo da vidase põem a ler para dizer ke sao fortes não têm medo de nada. Entendam-se!

Para tudo ser ainda mais niilista, falta ainda dizer que uma amiga dakelas do tempo da guerra(= de ha muito tempo, entre o Cambridge e a doidice maravilhosa dos 18anos)decide fazer-me uma visita surpresa....Ah, e foi aí, quando descia para entrar no carro, que me apercebi que não tinha carteira e que portanto estava literalamente dans la belle merde, para não ser tão abjecta.Mas-...Que felicidades...Conto-lhe a minha tragédia e ela desata a rir-se e diz-me: "como nos velhos tempos, não mudaste nada...."Pode parecer estranho, mas foi a melhor coisa que ouvi nos últimos 4dias. E maravilha, dou por mim a cantar Space cowboy , a sonhar já com uma bela cerveja, e a desejar que tudo o mais vá para o inferno.

Friday, February 16, 2007

Quando choves

Póvoa,Agosto2005

Quando choves


O teu riso de ouro
Continua a troar cá dentro,
Cócegas enormes na alma.
Os teus olhos, dois Mundos em órbita,
Parecem estar ainda nos meus dedos.
Vejo-te também de joelhos,
A pedir-me em casamento.
Sempre esse pedido,
Quando o medo de partir,
Aparecia negro, com uma nuvem.
Está a chover,
Grossas pingas entram pela roupa
Arrepiam-me nesta viagem.

Um tango de mim sem ti
E de ti sem mim.
Quando foi o fim?
Foi Quando me disseste “uma rosa picou-me o dedo”?
Sangrei tanto nessa altura....
Há uns dias li um poeta espanhol ,
Que dizia "há anos do passado Que são como uma frase riscada"[1].
Não há desculpas para o amor.
Se fugi, se não tive coragem,
Se fiz de ti um segredo
(ainda que o mais bonito do mundo)
Foi porque te amei,
E cega andei errante,
Sem saber que também me amavas.

Não sei tirar o risco sobre a frase.
Será mais fácil desenhar palavras novas.
O Presente doi com a tua lembrança,
Como a chuva sobre os lábios,
Lembra-me os teus beijos...


[1] “Abelardo Linares in Trípiticos Espanhóis, “A Sombra”

No teu peito o Mar

Foto: FC Cabo Verde, Santa Maria, Sal



No teu peito o Mar


Branco e sereno,
O teu peito.
Nuvens húmidas,
Em que afundo o medo
E me tiro ao sonho
De ir além mar.

Na tua calma,
Encontro a
sensata
Insensatez
De seres doce
E não saberes.

Na minha insensatez,
Descubro a vontade
De ser Primavera,
Despir-me do frio
E dar-te todas
As borboletas
Que tenho dentro
De mim.



Na maré mais alta,
A tua boca sobe
E é flor,
Espuma que bebo
Com toda a sede
De te querer.

No teu peito o mar.
A água
Em que hoje me deito.

Sartre e eu


Trabalho para Design- A existência

Thursday, February 8, 2007

A Luz do Porto



A Luz do Porto





Conhecida pelo seu brilho de pérola , a luz de Lisboa é já um símbolo incontestável da dona e senhora do país. Não esconde o seu desejo divino de transcendência. Afinal, carrega em si o fatum de ser filha da capital. Prova disso é o Tejo no seu largo espelho reflector.Aos alfacinhas cabe o papel de guardiões: narcísicos na contemplação do rio, esquecem-se de olhar mais além.
O Porto também tem a sua luz. Os guardiões da luz de Lisboa, apoiados na sua bengala, decidiram catalogar a Invicta com os termos “chuvosa” e “escura”. Palavras que se escondem no guarda-chuva invejoso da capital. Palavras que são como bátegas, daquelas que vêm de rompante e desaparecem com o sol que pinta de bronze as margens do Douro. E é essa a luz que experimento quando me perco neste pensamento, quando percorro a Mouzinho da Silveira até à ribeira , quando atravesso os jardins do Palácio e me sento num banco vermelho e vejo, pela fresta dos velhos chorões, a luz mesclada de pequenos fios de ouro que dá ao Porto a sua névoa misteriosa. Não, acalmem-se os senhores de Belém, já com os seus bastões a defender a legitimidade da sua luz..A Luz da velha Invicta é muito diferente e não pretende ser protagonista.. Vale a pena parar na Ribeira só para a ver dançar no rio Douro. Não é uma luz aberta num leque de 180º, nem de tons cálidos e ascendentes como o rosto da virgem Maria.Não é também da mesma tonalidade lunar que ofusca as estrelas lá em cima.Como é então? É uma luz que encerra em si o tempo, as histórias do Porto na sua idade de oiro e no seu retrocesso,das invasões napoleónicas, do comércio do vinho do Porto à revolução liberal,é a vida de uma cidade que esmorece na cor e ganha encanto na beleza que conserva de outros dias. Bebe-se como um bom Porto servido por uma pessoa que nos é querida. Daí ter que ser necessariamente mais rude, mais castanha, mais insistente.Tal como o é a sua gente: de alma ferida, mas com os braços e a voz levantados para defender o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Um povo de pessoas simples que sorriem com rugas, sacos nas mãos e olhos de amor. Pessoas que nada têm a ver com as mil e uma crónicas sobre o Porto e a sua crise económica, falta de investimentos ou desertificação. São pessoas que respondem com um sotaque forte e agreste a todas as vozes que tentam derrubar o castelo de sonhos e luta em que a Invicta se construiu.


Não, guardiões da Luz Branca, não me esqueci de vocês. Falta revelar a última grande característica da luz do Porto.. Caros senhores, a principal grande diferença das nossas luzes não se prende já com a estética, história ou filosofia de um povo, mas sim com a atitude de quem se expõe à luz. A luz branca da capital incide nos olhos, é tal o ângulo da sua abertura que antes mesmo de a sabermos, já fechamos os olhos.É certo que é envolvente,bastante física, mas perde todo o encanto quando se entrega assim de bandeja.
A Luz do Porto não. É mais recatada.Escondida nas manhãs de nevoeiro, chega até nós nos passos tímidos de uma menina a pedir um beijo. .É uma luz que vem de dentro.Incide directamente no coração. Só depois fechamos os olhos.

Wednesday, February 7, 2007

Foto: FC

Publicidade- Metro, Londres