Thursday, October 18, 2007

A Luz de Lisboa

Foto: Pedro Pinheiro


Há um ano escrevi uma crónica sobre a luz dourada da minha querida cidade do Porto, em defesa daqueles que exaltam apenas a luz branca e "cândida" de Lisboa...

Em Setembro, ironia do destino, a companhia aérea que me levou ao Brasil não me deixou sair no Porto, onde o avião fez escala....Pois é, vi-me sozinha com um malão, no aeroporto superlotado de ingleses antipáticos e polacos fanáticos que vinham para um jogo de futebol na capital.
Eis que encontro duas pessoas muito especiais, o Pedro e a Beatriz, que estavam pacientemente à minha espera. E que surpresa...

E que maravilha fazer-me percorrer por duas mãos já tão conhecidas, pelas ruas da Baixa, pelo Rossio, pelo elevador de Santa Justa, até me deixarem no "Adamastor", uma espécie de piolho com uma bela vista sobre o Tejo. As mesmas mãos que eu levei para conhecer o Porto. As mesmas mãos que me fazem não ter medo do passado, do presente nem do futuro.
E que luz tão branca de facto. uma folha de papel que se reflecte sobre os nossos rostos que estão a mudar...O que vamos escrever neles? mesmo na incerteza, algo sobressai neles: a grande cumplicidade dos nossos muitos ainda jovens anos.


Saudades Lisboa

Gonçalo M. Tavares conquistou o maior prémio literário do Brasil

18.10.2007, Jorge Marmelo

O Prémio Portugal Telecom, de 39 mil euros, foi atribuído por unanimidade ao romance Jerusalém, que já tinha vencido o Ler Millennium BCP, em 2004, e o José Saramago, em 2005

O romance Jerusalém, do escritor português Gonçalo M. Tavares, é o vencedor da quinta edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura, o maior prémio literário atribuído no Brasil. O anúncio da obra premiada foi feito ontem de madrugada, em São Paulo, tendo o segundo e terceiro lugares sido atribuídos, respectivamente, a Macho Não Ganha Flor, do brasileiro Dalton Trevisan (autor que vencera ex aequo a primeira edição do prémio, em 2003, com Pico na Veia), e a História Natural da Ditadura, do também brasileiro Teixeira Coelho. Mais informação(página 10)

Público

"Não voltes a temer o sol ardente....


Nem a fúria do Inverno"

Shakeaspeare

O Outono chegou ao calendário, mas as ruas do Porto parecem ainda quentes e as folhas verdes permanecem agarradas como se não quisesse separar-se dos ramos-mãe. Estão uns amenos 22ºgraus em pleno Outubro e um sol ardente que engana a brisa que vai varrendo pequenas folhas. Um cenário que talvez tenhas sido tu que encomendaste, quando te foste embora. Terás deixado pelas ruas pequenos fios de ouro que os pássaros trataram de espalhar pela baixa, pelas pessoas, pelas casas ainda de janelas abertas, pelos dias que ainda cheiram a ti, à ânsia de ouvir a tua voz ao cimo da rua, atrás do número 152.

Mas quando o Inverno chegar, não me digas nada, faz de conta que o Verão mais bonito do mundo ainda está para acontecer. Não digas nada. Prepara um cenário de rosas, polén, e doces dias para esquecer a falta que tu me fizeste.

Monday, October 1, 2007

Uma questão existencial

Foto: Direitos Reservados



“Os Jardins da Memória”, livro escrito pelo prémio Nobel da Literatura de 2006, apresenta-se como um pequeno baú de histórias dentro de histórias, personagens-fantasma de uma Turquia a viver uma crise de identidade política e civilizacional, dividida entre o Ocidente e o grande legado cultural do Médio-Oriente.
Intercalando entre a narrativa e as crónicas de um jornalista turco bastante influente, Orhan Pamuk aborda temas como o dos antigos escritores, poetas e pensadores turcos e a influência que exerceram sobre as grandes obras da cultura europeia (caso da “Divina Comédia”, de Dante); no fundo, estende uma tapeçaria oriental ao mundo ocidental. Mas Pamuk debruça-se também sobre questões tão humanas e complexas como a da memória, a da busca de uma “identidade” e a importância do houroufismo na cultura turca, uma prática que constituía em ler letras e signos nos rostos. Este é aliás, o cerne do romance: poderemos ser nós próprios, querendo ser outro? De que forma a memória e as histórias contribuem para a nossa identidade? Questiona-se Pamuk na narração do problema da personagem principal: Galip, um jovem advogado que não conseguia ser ele próprio, queria ser como o primo, o influente jornalista Djêlal Salik. Por sua vez, o cronista do Mylliet tinha um outro grande problema relacionado com a perda memória. Devido a esses lapsos, o jornalista terá começado a narrar histórias à irmã, Ruya( mulher de Galip), para que esta registasse as suas memórias. No último capítulo, Pamuk insere uma crónica que em jeito de epílogo conta a história de um príncipe otomano que elegeu como objectivo de vida, tentar ser ele-próprio. Isso depois de ter passado seis anos fechado num pavilhão para se dedicar apenas à leitura: desde Voltaire às “Mil e Uma noites”, o príncipe vai deixar de ser ele próprio para ser um outro que tem as ideias dos filósofos alemães, que fala como o seu antigo professor de francês, que se apaixona pela mulher de perfume de violeta como o personagem do romance que lera.
Por entre os cheiros do café e do rio Bósforo que impregnam a as ruas da Antiga Constantinopla, Pamuk conseguiu de forma surpreendente reunir num romance os estilos da narrativa, da crónica e do policial. F.C.

Thursday, September 13, 2007

Brasil, uma cultura viva

Foto: Filipa Cardoso
"Olha que coisa mais linda, tão cheia de graça...." Apetece dizer a uma morena de vestido branco folhado, sentada numa pose de fadista, no auge de uma noite tropical na "Toca da Joana", um dos pontos de encontro da noite alternativa do Recife. Os músicos riem- reparem, não se limitam a sorrir!- nos seus violões de notas soltas e alegres, nos seus instrumentos de percussão, nos seus pés que dançam sem sair do chão. Os "garçons" trazem a cerveja, num baile de cisnes com ritmos de maracatu e sorrisos requebrados. Nas mesas, os dedos tamborilam e os ombros soltam suspiros ao sabor da chuva e esse gosto a novo que fica no ar. Lê-se nos rostos de traços mestiços, uma esperança transformada em certeza, um certo "savoir faire" que o brasileiro põe em tudo o que faz. "Brasil,um país do Futuro"- li na capa de um livro de uma socióloga, na livraria cultura- ,. E esse optimismo utopista insinua-se na água quente da chuva, como um grito do ipiranga saído da bela cantora de vestido folhado em doces canções de amor.
Um utopia, um sonho, um país do futuro. Talvez.Mas nesse caminho, nesse sonho, o Brasil está vivo.

Friday, August 31, 2007

Um Recife de contrastes

Foto: Filipa Cardoso
(em construção)
Um arco-íris de paralelepípedos colocados como peças de lego entre um matagal tropical de palmeiras e outras árvores de copa exuberante.Este é o quadro de traços realistas que avisto quando acordo do sétimo andar de um prédio situado na zona da Casa Forte. Cá em cima, dentro do apartamento da calorosa família que me acolheu, respira-se a segurança de um arroz com feijão preto a tempo e horas preparado pela empregada de olhos doces. Lá em baixo,um porteiro resguarda o prédio da massa humana que molda as ruas do Brasil de medo,pobreza e tristeza.Como palhaços tristes, lá estão eles nos semáforos à nossa espera com fruta para vender e panos para limpar os vidros escuros que nos esperam. Digo "Nós", porque também eu me faço percorrer pelas ruas do recife num carro de vidros escuros. Como se tivessemos vergonha que nos vissem nas nossas carteiras e óculos escuros, e um medo simultâneo da violência do que não tem e quer ter.Também eu tenho medo. Entre o cheiro fétido das ruas e a maresia de um mar azul, existe o Capiberibi e as pontes que unem uma cidade separada por três ilhas, daí que o Recife seja conhecido pela Veneza brasileira.Junto à margem, as casas coloridas, marca de um passado colonial, alegram o rio em seus reflexos coloridos. Na rua centenas de pessoas circulam, entre vendedores de acerola, tapioca, água de coco e caju. Sente-se a vida da cidade, o frenesim, o optimismo, o sentido da sobrevivência que faz com que tudo o que seja fruto seja vendável, tudo o que se mova, nos faça rir. Bendito Carnaval.

Saturday, August 18, 2007

As Palavras que não digo



As folhas amarelas que piso
São as palavras que não digo.
O vento ,
Uma Penélope triste com seu lenço
Pedaços de nada
Para tecer a tristeza
Camuflar a incerteza
Calar
uma lágrima calada

Tudo,
Para que não vejas
Os fios de água ,
Outrora riso, pequeno rio,
Grito de alegria.
Canto de crianças ébrias,
Entre ervas que picavam as pernas
E calejam os músculos de tanto procurar
O sentido desse sórdido, carnal amar

Tempo de um Nós-não-quebrável,
Agora nó desdobrável:
Na saliva
o mar,
Nos olhos,
a espuma,

No peito
As Plumas ,
Das asas
Deixadas
Sobre a cama.


E tu não vês,
As palavras que eu não digo,
O brilho quebradiço da Lua
Sobre a porta ao fundo da rua.
As palavras que não digo…
A verdade tão crua
Como a lua estar nua
E esta noite ser a última.

Para o David

Monday, July 30, 2007

Para onde os teus olhos estão a olhar....

Foto: David Molina


....Os meus estão também.

Olhas para mim. sinto esse olhar. E é como se olhasses pelas persianas dos meus olhos.Entreabertas pela luz do teu sorriso e os pedaços de sol que saem da muralha.
Unforgettable.

Tuesday, July 10, 2007

Portugal na Presidência da UE

Recentemente Portugal assumiu a presidência da União Europeia. De facto, não poderia ter vindo em melhor altura: o tapete da UE estendeu-se exactamente no momento em que era necessário esconder os resquícios de um mal acabado caso "Independente", e por ventura esquecer que temos um Primeiro Ministro a governar o país que não teve coragem suficiente para se mostrar com um bacharelato.

Tal como no tempo dos descobrimentos, as descobertas da Índia e do Brasil e o cheiro da canela e do cacau serviam para disfarçar o mau cheiro intriguista da corte, agora a presidência portuguesa na UE serve para disfarçar o pequenino pormenor da ausência de um presidente da Câmara na capital do país, que por acaso é aquele que está à frente da UE.

Bem, outra característica colonial, prende-se com o facto da
estratégia política portuguesa na UE ter como grandes prioridade o Brasil e África. Mais uma vez é necessério recorrer ao samba e às mornas para dar alguma vida à nossa actuação política e disfarçar a crise interna do país.

O défice orçamental e a taxa de crescimento a baixo da média europeia poderiam ser aqui referidos. Porém,penso que já basta de pessimismo.O "síndrome crise" transformou-se num daqueles clichés inúteis de que até as Peixeiras do Bolhão falam enquanto apregoam meias e cuecas. Espero sinceramente que o país aprenda com o Brasil- um país que a priori se abriu à Europa sem ter precisado da velha metrópole,-e dessa forma, entre um samba e um vinho do Porto( porque também está na altura de o Norte se revitalizar) o país acorde do pesadelo.

Thursday, June 28, 2007

Flamenco Jazz

Há um género jornalístico que muito aprecio, a crónica...Porém não é fácil tratá-la, uma vez que exige um olhar crítico e assertivo, e ironicamente da-nos ao mesmo tempo uma maior liberdade literária.Muitas vezes, nomeadamente no que diz respeito a uma crónica cultural, sobre um concerto por exemplo, torna-se bastante difícil definir os limites do que deve ser objectivamente dito e o que é subjectivamente necessário ser dito para que o que foi objectivamente dito, mais do comunicado, seja sentido, cheirado, tocado...

Como é possível definir a música objectivamente, se a ela está associada uma sinestesia tão profunda e variada?

Bem, resolvi arriscar e fazer uma crónica, ou antes,uma interpretação de um estilo Musical ainda pouco conhecido pelo grande público. Um dia posso publicar um pouco da sua história e raízes( curiosamente nasceu nos EUA!), mas para já proponho uma viagem de barco através da poesia, ao fabuloso mundo do Flamenco Jazz.

Escolhi a música "Alegria Callada" De Chano Domínguez, do albúm "In Íman".

Porto, Abril, 2007
“Allegria calada “



A primeira vez que te vi, não te vi.
Ou melhor…
Não sabia ainda do teu cheiro a amor,
Dos teus cabelos pretos, nem dos
Teus olhos cor de azeitona.
O que eu vi, foram apenas as tuas mãos,
As tuas mãos morenas.

……

Os teus dedos,
Quando quedos,
São como duas teclas de piano,
Lisas e brilhantes,
À espera de serem tocadas.

Olhando mais de perto,
Descubro o moreno das praias do sul,
O cheiro do mar e
A espuma nas tuas unhas brancas.

Juntas, as tuas mãos têm a forma de um cavalo
Galopando num tango,
Entre as dunas quentes da areia
E O frio da tijoleira.

Possantes,
Elas seguram másculas,
A cinta doce e volátil
Da guitarra.

Dá-se o encontro.
Da guitarra,
Soltam-se palavras de amor,
No piano,
A água percorre as curvas femininas.
Em mim,
Tiritam os veios,
Da flor vermelha que rasga o pulso.

De repente,
Não vejo mais o piano
Nem as teclas brancas,
A guitarra ou
A cinta de bailarina.
Sou apenas eu,
Entre dois pássaros,
Castanholas
e um céu que é de facto azul.

Tuesday, June 26, 2007

S.João,darling

Foto: Direitos Reservados
Chegaste finalmente.


I Acto

Pela noite fora, lançamos balões, um misto de ternura rude das gentes do norte com um misticismo oriundo talvez da saudade fatalista que achamos que só no sul existe.No céu azul, as bolas de fogo brilhavam redondas como luas a dançar embriagadas.O vermelho que as incendiava, um prolongamento dos nossos corações cá em baixo a vê-los voar. Nesses balões, todos os nossos pedidos mais genúínos. Nesses pedidos,lá no alto,tu.

II Acto

A peregrinação dos nossos pés cansados de subir as ruas tortas e íngremes da baixa até à ponte que o Eiffeil sonhou um dia, talvez numa bela noite de S.joão. Nunca esperou ele que esta sua construção pudesse um dia ganhar vida. Sim vida, a certa altura a polícia teve mesmo de intervir ao início da D.Luís, para que ninguém mais entrasse. Estava de facto a tremer. As pessoas saíam lívidas da ponte.Depois de cuspir labaredas e levar o povo ao extâse, ei-la ,pequena e doce menina a tremer sobre as próprias lágrimas.


III Acto
A loucura. Os martelos hasteados como armas em defesa de um Porto ferido de alma e coração. Na voz a demência, a libertação das lágrimas sofridas todo este ano. No corpo a saudade, esse lusitano estado de alma que não larga as nossas gentes. No peito, rasgado pela dor da tua ausência, a tua memória. A vontade de recuar no tempo. A vontade de ser o Porto novamente uma cidade protegida dos nobres. A minha vontade de ser livre deste mundo constrangido e viver de novo essa paixão proíbida, só minha e tua.E foi a ver o rio, que te revi novamente, que te beijei de todas formas possíveis com o pensamenteo,que vi o dia nascer sem frio, ou medo de te perder.

Esta é a noite de todos os amores e de todas as dores. Vários historiadores como Hélder Pacheco, escreveram coisas interessantíssimas sobre o S.João. Fica aqui a dica.

Monday, June 11, 2007

The real train(um ano depois)

Foto: FC
Existem dois tipos de comboio: os de sonho e os reais. O primeiro nasceu com Watt, com a sua bela máquina a vapor adaptada a comboio, transformando-se depois em brinquedo.O outro, o comboio real é o que dá corda aos nossos desejos, vontades,sentimentos mais secretos, medos, e incertezas. Descobri o comboio onírico durante o encantamento da infância. O comboio real,esse,conheci contigo.

.....
Estação de Campanhã. Sete da tarde. A voz impessoalmente treinada anuncia mais uma partida do alfapendular em direcção a Lisboa. Fiquei feliz por teres vindo.Desta vez, quis presentear-te com um vinho do Porto, um dos antigos da minha família. Não sei se chegaste a ler a carta que coloquei junto da garrafa. Terás lido ainda no comboio? No aeroporto?Ou muito tempo depois, num Natal com a família, a milhas de distância de Portugal? Independentemente do tempo, espaço ou motivo, espero que tenhas percebido o sentido e talvez esse se torne uma forma de ubiquidade entre os dois e não de uma banal inconformidade.Na folha rabiscada na minha caligrafia eternamente adolescente, falo-te na filosofia do vinho com o nome da cidade que ambos amamos.Um vinho que podia ser um caleidoscópio, um vestido vermelho-uva, mistura perfeita do Douro, dos gatos,dos livros, das ruas sem fim,dos encontros, dos desencontros, dos beijos atirados em dedos, dos dedos a calarem beijos, das palavras, do silêncio, de ti ,de mim, de ti sem mim, de mim sem ti.... Dou-te um rio: no lugar dos sedimentos, deixo-te todos os sentimentos que fazem o meu amor por ti. Por isso te digo no Post Scriptum para beberes vinho do Porto “every moments of your life”. Mas mesmo que não tenhas lido a mensagem, alguma coisa nos teus olhos me disse que mais tarde ias entender.Percebi isso quando pelo vidro do teu vagão vi correrem duas estrelas azuis. Sorria-te, um sorriso branco, com uma calma que nunca antes tinha sentido à tua beira.Depois fui andando decidida, no sentido contrário à linha, como nos filmes em que não se quer ver a pessoa querida ir embora.Mas se o fiz, foi inconscientemnte. E magia, estava radiante , como uma menina que acredita no final feliz das histórias de amor. Provavelmente, tu eras a pessoa mais triste daquele comboio. Eu, a rapariga mais feliz do mundo daquele cais subitamente só, povoado apenas pelo vapor que não cheguei se quer a ver. Era um dia de Maio, solarengo. Pensava que a Primavera tinha chegado finalmente contigo e que desta vez tinha vindo para ficar.Foi a última vez que te vi.

Para o Gary

Saturday, June 2, 2007

Pianos de mim





(Para a Beatriz) A minha prima pediu-me para neste dia publicar uma carta. Porém decidi escrever esta pequena reflexão sobre a minha ainda curta existência. Para isso tive de recorrer a muitas "mãos" e à música do piano que redescobri em mim. Este texto foi escrito para todas as pessoas que fizeram da palavra amor uma nota de música, jamais esquecida dentro de mim.

(Para Eduardo) Não resisiti a roubar-te a imagem do lago, o lago da minha querida infância...Obrigada peixinho vermelho.

Pianos de mim

Já sentia o que senti com o livro de José Luís Peixoto, “Cemitério de Pianos” há muito tempo. Foi preciso ter passado pela adolescência e pelas múltiplas metamorfoses de mim, em que eu era apenas um corpo de passagem, sempre em construção e desconstrução, para novamente una e cheia de água poder sentir a força de um mundo passado que me habita e me faz ver por dentro sem precisar de um espelho. Terá sido com o filme, “Pianista”, com os nocturnos frios de Chopin que uma mola dentro de mim desactivou toda a catarse de lágrimas que durante muito tempo estiveram adormecidas. Terá sido com Kate Jarret e a sua “My song”, que aquela torrente quente e salgada passou pela minha boca e desceu até às mãos e aos olhos como sangue a desfiar. Terá sido recentemente com Flamenco Jazz que descobri que me apaixonei pelas mãos morenas do Xavier quando escreviam ao meu lado e pelos dedos brancos de mármore e ternos do meu professor de inglês.

Sempre o quente e o frio. Tanta melodia sem voz, mas em cada tecla uma mão de palavras, o meu quarto antigo, a minha boneca preferida, o jardim com o lago de peixes vermelhos onde aprendi a andar, a rua que percorria levada por uma mão até ao lugar onde ouvia palavras dentro de teclas e coisas a acontecer nos meus passos de ballet, tão pequenos e soltos ainda…. Lembro-me da mão grande e protectora do meu pai quando me deixava do outro lado da rua da minha casa. Lembro-me da mão rosada da Dona Rosa, carregada de anéis e gordurosas de carinho quando me vinha buscar ao infantário para o ballet. Lembro-me enfim das minhas mãos na barra de madeira. Lembro-me de que tinha de ter os dois braços abertos em oval e os dedos como se fossem agarrar castanholas. Lembro-me das mãos finas do pianista bonito por quem todas nós nos apaixonávamos no dia dos exames. Lembro-me das mãos duras da examinadora inglesa sobre uma mesa onde só chegava em bicos de pés. Lembro-me das mãos da minha mãe na minha cara e da segurança e do amor que deixava em mim sempre que me tocavam. Lembro-me das mãos do meu pai a comer e a calar as minhas mãos que queriam contar as palavras que tinha aprendido naquele dia na escola. Lembro-me das mãos morenas do meu irmão a brincar com as minhas pequenas e brancas. Lembro-me das mãos da Lena, a educadora, e do seu pulso fino cheio de pulseiras que quando eu a chamava vinham até mim num doce tilintar.


Mais tarde, quando me despedia da última Filipa adolescente e dos beijos do primeiro namorado, a rua do Instituto de inglês, as árvores que dançavam antes de desaparecer na porta e estar diante do professor a tremer de amor. Amor. A mesa de madeira e as mãos finas do Xavier a escrever sobre a revolução francesa ao meu lado. Paixão. As mãos do meu primeiro namorado a segurar um lápis e a desenhar corações com o meu nome. Sonho. As mãos das minhas amigas a segurar-me em noites ou manhãs mais difíceis de suportar. Amizade. As mãos da minha mãe a lambuzarem o meu cabelo de amor, numa momice de mãe. Tudo. As mãos infantis e cheias de sonhos da minha avó sobre os meus cabelos. Cumplicidade. As mãos tímidas do meu irmão a quererem dizer tudo ao mesmo tempo. Inseparabilidade. As minhas mãos escondidas pela manga do casaco ou pelos bolsos, a esconderem todas as lágrimas que não solto. Nascimento.

Tantas mãos que hoje sinto dentro de mim. Tantos sorrisos, tantos choros, tantas histórias, tantas verdades que só existiam em mãos e nunca foram ditas, tanta música, tanta luz e escuridão, tanta coisa que só consigo dizer a chorar quando escuto um piano e as palavras das mãos dentro de mim.

Saturday, May 19, 2007

La vie en rose

Foto: Direitos Reservados
Edith Piaf...Que sabemos nós dela?Toda a gente entoa o "La vie en rose" e alguns o "hymne À l'amour", mas quase ninguém sabe como foi a vida atribulada, feita de perdas e internações hospitalares desta pequena mulher de voz e personalidade indissociáveis. Fiquei estarrecida e enternecida com a vida daquela mulher puissante de 1.50 de altura,uma voz que me faz estremecer o chão debaixo dos pés e soltar as lágrimas que escondo na manga da camisa.

Um filme como há muito não se fazia. Uma excelente forma de tentar perceber aqueles olhos azuis sempre muito abertos e os seus gestos de pardal assustado. Uma forma também de olharmos um bocadinho para os aspectos simples e tão ou mais importantes.

Recordo uma cena final em que a Edith, já bastante debilitada e depois perder o seu amor (o pugilista Marceaux), responde a uma jornalista o que para ela era mais importante na vida: "L'amour!".

Bonito mesmo. Depois de ver o filme passei a noite e o dia a seguir a ouvir o cd que há muito não se ouvia pela casa.

O título original do filme é "La Môme", a menina, nome artístico da Edith quando começou a carreira. La Vie en rose foi a tradução mais burlesca que conseguiram arranjar. Mas talvez não tenha sido mal escolhido....Apetece cantar e sorrir à vida quando saímos da sala de cinema.

Sunday, May 6, 2007

Darfur is real.

SaveDarfur.org has a post called "Background" that's worth checking out...





DOWNLOAD: Policy Talking Points (Updated 3/30/07)Darfur has been embroiled in a deadly conflict for over three years. At least 400,000 people…


Monday, April 30, 2007

Um encontro com Cervantes

Foto: Direitos Reservados
Praça de Cervantes, Santiago de Compostela

Há cerca de umas três semanas fui conhecer Santiago.Uma cidade muito bonita, bastante ao estilo de Guimarães e Braga. A catedral insurge-se imponente, no seu estilo barroco, marca de uma História de muitas histórias de pessoas, épocas, pestes, amores, divisões,paixões´, inquisição, morte, vida... Mas o melhor em Santiago são as ruas: dá vontade de nos perdermos e encontrarmos por acaso um jardinzinho, numa espécie de claustro público, com flores vermelhas e tocadores.Dá vontade de contornar com os dedos os arcos de pedra do túnel por onde passo. Foi nesse acaso que encontrei a praça de Cervantes, assim quase como me perdendo. Fiquei feliz. Foi um belo encontro. De facto, é o acaso que mais me encanta em lugares novos. Foi ao acaso que me apaixonei perdidamente por Itália a cada esquina que cruzava, a cada janela que se abria nos típicos prédios antigos de portadas coloridas e flores a cair pela janela, apaixonei-me pelo voo de uma pomba na bela praça de s.Marcus, apaixonei-me pelo caricato, pela luz que em cada cidade é diferente.


Milão

A maravilhosa obra de Miguel Cervantes, mais do que um clássico d literatura mundial, é qualquer coisa de delicioso...Pensar como alguém já no século XVII foi capaz de protagonizar tao bem uma novela realista, de um humor mais que dantesco, condimentado pelos costumes daquela região da Mancha,oscilando entre a visão de um Sancho Pança ignorante, arquétipico de um camponês analfabeto, gordinho e crente nas promessas do seu amo e uma visão idealista, sonhadora de um D.Quixote letrado, que de tanto ler romances de cavalaria acaba por enlouquecer e achar-se também ele um cavaleiro andante destinado a proteger as donzelas e princesas, a matar dragões e outras figuras mágicas criadas por D.Quixote. Uma delícia.

Cavaleiro andante

Solta-se o ego
Do louco D.Quixote
No peito traz a sorte
E a espada de um amor cego

Vai andando,
O cavaleiro andante,
Pelas estradas errantes.
Não sabe dela,
Da bela Dulcineia
Mas sabe,
Que se parar
Param os moinhos
E o coração de andar

Andar, amar
Amar e sonhar
Sonhar
Com ela,
Com a vida
Que teria
Se não fosse Poesia

Mas Cavaleiro Andante não chora
Seu cavalo Rocinante
Chora por ele,
Num doce quebranto
Enquanto ele,
Ri-se na imensa loucura
De ainda ser capaz de
Amar
E de conquistar.

Filipa Cardoso

Friday, April 27, 2007

San Jordi, dia da Rosa e dia dos namorados na Catalunha

Foto: Direitos ReservadosFoto: Direitos Reservados




Pensava que o dia dos namorados era aquele dia 14 de Fevereiro, um dia em que se dão rosas que não cheiram e corações de vidro que se partem logo. Porém, tive a sorte de conhecer o Xavier,magnífico exemplar da beleza típica e graciosa dos morenos do sul.Poeta e sonhador também, como bom filho de Cervantes. Vindo de Tarragona, Catalunha, Xavier deu-me a conhecer o dia dos namorados na região por altura do Verão.Era Julho e as ruas do Porto gozavam daquela calma apaixonada. A luz amarela, as palavras e as ruas, tudo parecia confluir num perfeita simbiose a cantar como um rio canta entre as pedras e as curvas do caminho. Hoje, dia 23, evoco essa alegria calada e a rosa vermelha que me trouxeste em representação de San Jordi para contar sucintamente essa lenda: certo dia, a donzela mais bonita do reino é raptada por um dragão.São Jorge( san Jordi),valoroso cavaleiro, vai resgatar a bela senhorita. Este consegue vencer o dragão e no lugar onde foi derramado o sangue da fera, nasce um roseiral.Daí que esse seja também o dia da rosa.

O dia é comemorado a 23 de Abril, data em que se celebra o livro, em homenagem a grandes escritores e poetas como Cervantes e Shakespeare que morreram igualmente a 23 . Xavier escreveu-me nesse dia. Disse-me que os rapazes dão rosas e livros às raparigas e passeiam entre o sol e os cafés.Deu-me vontade de estar lá também.

Thursday, April 12, 2007

Saudades de um Beija-flor

Foto: Direitos Reservados


Gosto de quando te calas

E sorris, assim calado,

À espera de um beijo meu.

Gosto de quando te calas

E me abraças com as duas meninas

Dos teus olhos.

Gosto de quando te calas

E soltas palavras meigas dos teus dedos,

Palavras de um beija-flor

Ao de leve passeando,

Pela minha perna.
….

E Talvez me amasses ainda,

Se te dissesse,

Que de olhos fechados,

Podia ouvir o beija-flor

Tactear dentro de mim.

Monday, April 9, 2007

O Porto em poesia

Encontrei na fnac, na míngua prateleira destinada à poesia, um livro fabuloso de poesia dedicada ao Porto.Trouxe parte deste poema comigo:


In Carta de Agosto
(...)
' Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto

[tempo

como: Amo-te muito, meu amor, que saudades, vem depressa

E outras palavras ainda mais gastas que digo

[todos os dias:

'Foda-se esta merda( somos do Norte e e não somos castos nem

cautos na língua)


(...)

Inês Lourenço

Sunday, April 8, 2007

Sometimes in April

Foto: Direitos Reservados

1994, Rhuanda, a tensão aumenta. Os hutus querem vingar-se dos Tutsis,antigo povo priveligiado pelos belgas, aquando a colonização. Acontece a tragédia...
Não sou capaz de escrever. Qualquer tentativa de descrever o massacre soava a falso.
Para quem quiser saber o que nunca soube e a comunidade internacional(os media também) calou, veja o filme 'Sometimes in April'. Se preferirem uma versão mais hollywodesca, aconselho "Hotel Rhuanda",muito bom.

Monday, April 2, 2007

Sushi,amigos, rosas e sangue

Um jantar que começou a ser feito as 20h e só ficou pronto a meia noite.Nunca pensei que o peixe cru pudesse ser tão exigente.De qualquer forma, ficam os parabéns ao João. Tem uma paciência em tudo na vida. Só nao entendo aquela do meu sushi de meia alga não servir.estava realmente bom!

E a noite como todas as que são especiais( especial, no sentido clínico da palavra),começa com o nosso vinho alentejano e conversas sobre nada e sobre tudo. à meia noite chegam finalmente os canudinhos de peixe, arroz e afins. Tudo muito bonito. O vinho tinto deu lugar ao chá verde. Mas eis que de repente, um trago amargo no copo( talvez o resto do nossa água dionísica) leva a conversa para o mundo dos Media,esse mundo que todos condenam e usam o cliché " de que tudo o que dizem é manipulado". >De repente penso em nós...Dois arquitectos,um engenheiro, duas ainda no secundário e duas, que na hora, valeram por um batalhão inteiro de Peter arnett's no vietname, atirando-nos com unhas e dentes aquilo que mais niguém no mundo acredita: a ética e honestidade de uma pessoa. Depois chegam as palavras menos doces de ouvir, como me dizerem que vou ser uma no meio de tantos, vou também vender ´histórias e contar histórias...Gostava de saber o que sabem as pessoas do mundo sem os mais miseráveis dos jornais( metro, correio da manhã) e a mais sensacionalista das televisões. Para quem nao tem acesso a cultura,o que é compreensível tendo em conta o baixo rendimento per capita e o nível de abandono escolar...Mas caramba, aqueles que têm acesso, tenham o bom senso de perceber que muitas vezes o jornalista nao tem poder, nem acesso as fontes para apurar toda a verdade. Se inventa, é com certeza por que nao tem ética e nao é honesto. é pouco provável que isso aconteça,há sempre um editor e a lei prevista para casos de difamação, manipulação...Mas para essas pessoas que ainda dizem que tudo é manipulado e que é o jornalista o culpado, peço que se sente e veja que a "máquina, o sistema" que escreve a notícia é humano, tem família, tem-se a si e só a si para sustentar. Nao tem o sistema. Que me dá o Estado se difundir o boato de que sócrates pode nao ter completado o curso? Que me dá? Dá-me o suficiente para me calar? Manipulação?

Depois....depois sei que me cortei no dedo. Estreava pela primeira vez a minha camisa branca victoriana comprada por uma pechincha em Londres. Só dei conta mais tarde, na ribeira. O sangue do dedo deve ter subido pela manga, á medida que também a discussão subia e a ferida dentro de mim também. Eis-me então, de camisa exangue, copo nao mão e uma rosa na boca,deixada ao acaso na mesa do bar. Provei uma pétala. Era amarga.

As discussões com amigos sobre o futuro e respectivas futuras profissões sabem ao fundo de um copo cheio de borra. Prefiro as vossas rosas.

"I cannot resist to the roses of my friends"
Ben Harper

Friday, March 30, 2007

Como se fosse possível haver manhãs sem ti.

Foto: FC
“I don’t need no money, all is need is my baby”
Canta o Otis Redding para me acordar
Espreguiço-me como um gato e respondo-lhe:
and I don’t need no mornings, all I need is my baby



A manhã de tão perfeita,

Traz-me a luz branca quase húmida

Numa vela em que a ponta

Dos teus cabelos ou cigarros arde

Sobre mim.

E esta manhã chegou tão triste

E bela, como se fosse possível

Haver gatos na varanda ao sol

Como se fosse possível

Haver pessoas no metro a falar da “manhã que está tão bonita”

Como se fosse possível

As flores lançarem as corolas sobre as abelhas

Como se fosse possível

O cheiro do café e os beijos dos namorados.

Como se fosse possível

Os pássaros e a música das árvores como um rio

Como se fosse possível

Como se fosse possível haver manhãs sem ti…

Monday, March 26, 2007

Chat de mon âme

Foto: Direitos Reservados
Soneto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e a morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


Vinicius de Moraes

Florença, 11.1963

in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

Agradecimentos ao sonetista, conterrâneo da poesia

Sunday, March 25, 2007

O amor é uma roleta russa

Foto: Direitos Reservados
Foi na noite que te encontrei. É Na germinação do outro dia, entre o êxtase de um e o cheiro fétido do que virá, que nos encontramos...Talvez nunca te volte a ver, talvez a nossa conversa seja esquecida, talvez tenhamos a mesma conversa com outra pessoa e já não sabemos se as palavras que estamos a dizer foram as tuas ou as minhas . É assim que a noite acontece. Não sei nada de ti.Não sabes nada de mim. Os dados estão lançados. De repente, chegamos ao amâgo , e falamos dos nossos amores,dores, medos, de repente aquela pessoa é portadora da minha palavra. O facto de falarmos numa mistura de francês e inglês também ajuda...Muitas vezes temos medo de ouvir na nossa língua o que nunca seríamos capazes de proferir.É como usar uma máscara. Essa é uma das justiicações para o fenómeno transnacional das relações. Mas continuando....Entre teorias, (porque nós jovens achamos que o Mundo ainda está por descobrir...Desilusão total quando afinal descobrimos que toda a gente já sabia isso, menos tu), entre palavras atiradas ao ar, entre um cigarro, uma voz mais exaltada, chegamos lá...Eureka! afinal é isso...O amor é uma roleta russa. Uns têm sorte outros não. A roda sempre a girar, a girar...Vem-me a cabeça o "Jogador" de Dostoievsky, mas isso, só na manhã seguinte...Engraçado como "analogamos" as coisas muito tempo depois.Li o livro há mais de um ano..Parece que fizemos uma descoberta. A pessoa vai falando do quanto está dividida...No fim, entre um gole de uisquy e um pousar de copo fatal, diz " I don't have nothing". è entao que eu digo: "and me?"...E à nossa volta há gente feliz, casais a planear viagens...Somos jogadores e vemos tudo de fora. Somos jovens e sabemos que é tudo flutuante, queremos o mais depressa possível saber o que está depois do rio. Mas a vida é um rio, não somos unos, somos os que já nos tiveram e os que ainda vamos ter.O amor é esse jogo.às vezes o vermelho, outras vezes o preto. "Life is a Cabaret", canta o Amstrong. O Siddharta também sabia que o amor era isso. Ele sabia-se incapaz de amar uma só pessoa. Pode talvez ser uma forma de egoísmo, essa procura constante de ganhar mais da vida e das pessoas, sem pensar que elas vão ficar para trás e que estamos a roubar um bocadinho delas. Aposto aqui e ali, passa um belo italiano, um rapaz de livro na mão e olhos meigos, um jornalista de olhar aventureiro...Passam...Passam e vão...Como os "comboios param e partem"(Virginia Woolf), como tudo continua a ser jogado.
Se sabemos que o amor é isso, porque ainda assim sofremos?

Sobre a ausência, a onda da manhã, os passos macios na areia, a linha contínua do horizonte, a linha que com pedrinhas frágeis tentamos inutilmente atingir. A onda sobe e desce.
a onda sobe e desce. A onda sobe e desce....

Tuesday, March 20, 2007

O dia hoje é Poesia

Para este dia tão especial, escolhi o meu poeta preferido,autor do meu poema de eleição. Leiam-no a media voz. Não se assustem com a clareza das palavras: claras, límpidas,certeiras. Ao ouvir o poema ouço água dentro de mim, riachos, pequenas brechas num jardim tão escuro como é o da alma.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade


Mas hoje, também faz anos uma pessoa muito especial.O Pedro.Um belo árabe de coração nortenho. Um suspiro deixado pelo vento, uma voz de cafuné, um sorriso que encanta todos os pássaros do Palácio. Um amigo para sempre.

para ti:


O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Sunday, March 18, 2007


Manifestations pour la paix en Irak
LEMONDE.FR | 19.03.07

© Le Monde.fr

"O Beijo" de Klimt

Um beijo diferente dos outros
Início do século XX. Klimt, um amante da mulher, quis com este quadro, representar a sua emancipação, a sua satisfação enquanto ser igual em direitos e vontades. A mulher já não oferece a boca para beijar o homem, ou tem os lábios entreabertos a sugerir um beijo, como acontece noutros quadros do pintor. Está de olhos fechados, com um ar feliz e senhora de si.

Saturday, March 17, 2007

A Primavera chegou.

Boas notícias da Polónia...A garrafa de Porto foi finalmente aberta, ao som de um "Fado das dúvidas", e um calor sem dúvida lusitano. Pensar como as nossas coisas e sentimentos podem estar num país tão distante e diferente. Pensar nisso é fantástico, sufoca-nos com a ubiquidade quase surreal.Pensar nisso é encher-me de felicidade e saber que agora mais do que nunca sou uma referência espaco-temporal desta cidade, país...Pensei que num ápice a garrafa desapareceria. Mas afinal, andou 10meses contigo a passear..

Hoje fazem no Porto 21º. O polén das flores cai de mansinho como flocos de neve.
Ouço também agora Madredeus.Estás Tão longe e tão perto.De todas as dúvidas que tenho, serás talvez a maior. Prefiro a tua incerteza e alimentar-me da tua memoria, do que a certeza de não te ver nunca mais. De qualquer forma, haverá sempre um vinho e um país por visitar.

A vida é bela.



Fado Das Dúvidas
Madredeus
Composição: Pedro Ayres Magalhães
(...) Não sei amor onde andarás
Pergunto o todo o que te vê
E nunca sei como é que estás
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor
Diz-me tu, que eu nunca sei
Se voltarei ou não para ti
Se ainda quero o que sonhei

Friday, March 16, 2007

Involve me!

"Tell me, and I will forget.
Teach me, and I will remember.
Involve me, and I will learn"

Benjamin Franklin

"Involve me", in every senses of the word;)

Saudade , um pássaro sem nome, país ou língua.


Fronteiras de mim

Hoje,aqui em Veneza,
Sou as pontes
E as mil pombas
que em mim voam.
Corro,
Em cada esquina
um amor,
Paixão invisível.


A praça é a de S.Marcos.
O tempo ,a Juventude.
O relógio ,cor do céu,
Parou para nós o tempo,
Num dourado eterno.
Deixei de ser o leão
De asas aladas[1].
O meu peito é água,
A respirar
A Dor e a Saudade,
De te ver chegar e partir
Dessa Europa sem fronteiras.

Hoje,
sou as pontes de Veneza,
Dentro de mim,
Partidas.

[1] O leão com asas é o símbolo de S.Marcos, Santo de veneza
Agradecimentos à minha queridíssima Marta, que muito me ajudou na tradução e também ao meu professor de inglês, que no seu pragmatismo romântico me ensinou a não ter medo da chuva.


Borders of me


Today, here in Venice,
I ‘m its bridges
And the one thousand doves,
Inside me
Flying.
I run,
In each corner,
A love,
Unseen passion.

The square is the Saint Marcus one.
The Time, the youth.
The clock , colour of the sky,
Stopped the time for us.
In an eternal gold.
I’m no longer the winged lion[1],
My chest is water,
Breathing the pain and ‘Saudade’[2]
Of seeing you come and go,
From this Europe without borders

Today,
I’m the Venice bridges.
Inside me,
Broken.

[1] The wigged lion is the symbol of Saint Marcus, the saint of Venice.
[2] Saudade is a portuguese name which could be translate by “miss someone, something , somewhere”

Thursday, March 8, 2007

Um presente chamado Neruda

Foto: Direitos Reservados
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.






Pablo Neruda

Wednesday, February 28, 2007

O dia Seguinte. Reflexões

O dia seguinte
Reflexões


Confeitaria do Bolhão,fim da tarde. Estou sentada nos sofás ao lado de um grupo de senhoras, tratando-se por “Donas” e oferecendo sorrisos de meninas- sorrisos que não vejo nas meninas de 16 e 17 anos que afugentam a rua de S.catarina com a sua indiferença líquida e efémera- , sorrisos que embalam os ramos de flores vermelhas que pintam as paredes verdes.Entra um cantor ambulante de traços ciganos. O som de uma flauta, uma balada italiana que faz dançar os átomos da sala e estremecer o meu cabelo que saiu do chapéu. Uma súbita alegria invade-me, como se um Orfeu tivesse entrado naquela sala para anunciar a Primavera.Estou sozinha, não há razão para o súbito alegrato, pode ser da presença das senhoras felizes ou a lembrança de uma Itália feliz. Não sei. Mas afinal é possível.

Hoje é o meu primeiro dia depois de tudo.
Acabam de entrar duas raparigas. Uma delas, uma antiga colega de trabalho. Discorre na perfeição sobre Kant e sabe um pouco de tudo. Daria uma excelente advogada se não fosse tão revoltada. Ao lado dela, a namorada do amante. Riem-se numa cumplicidade feminina que exclui do seu universo de saldos e mestruações toda e qualquer presença masculina.
A vida é irónica....No fundo sempre foi assim, os flirts da Belle Époque, do século XIX, sujeitos ao abafo das sombrinhas cor-de-rosa.
Ao meu lado as senhoras elegantes começam a trautear uma velha canção. Dizem que vão embora. Também tenho de ir não tarda. A Rute deve estar a minha espera.

Sandra, isso mesmo, o nome da possível advogada amante do namorado da amiga que está sentada ao lado dela. Como o Mundo é tão pútreo....Pergunto-me, Onde param as relações?Um dia conhece-se, conhecimento superficial, no outro namora-se e no outro acaba-se. Uma Versão mais Queirosiana, num dia conhece-se, no outro fazem-se juras de amor eterno, depois o mistério, o tédio e finalmente o amante ou a amante que vem quebrar o tédio.Este Mundo assuta-me e entristece-me. Prometi a Amanda que não ia ficar triste, por isso continuo.
Lembro-me de um Livro do Kundera, “A lentidão”, em que ele dizia que quanto mais rápidas as coisas acontecem, mais rápido é o esquecimento. Isso justifica as muitas amnésias de noites de bebeira, flirts,etc. Esta noite choveu e eu chovi também. Mas hoje o dia brilhou e limpou tudo com um sol que apenas traz as boas memórias. Enquanto isso, tudo é lento à minha volta. Conversas, empregados circualam, pessoas, viajantes entram. Sinto que vejo tudo pela primeira vez. Isso é bom.

Passamos o dia, eu e a queridíssima Amanda numa sessão solene do IPP que fomos cobrir para o Jup. As palavras do Presidente pareciam objectos de tortura para a audiência. Tudo muito formal, com um palavreado de jazigos, medidas, planos, etc...
Foi este o dia seguinte.
Cheguei à faculdade e encontrei o sorriso do Manel. De visita, pois trocou corajosamente jornalismo por um ano a estudar para tentar Medicina. Um sorriso cúmplice, que nos faz encontrar a pessoa tão poucas vezes, e saber tudo nesses starrings de momento. Não estive com a tribo, entenda.-se, a Luana e a Vanessa. Mas curiosamente foi até bom. Apercebo-me cada vez mais que nestas alturas mais do que os amigos, é a própria vida, a rotina, que nos ajuda a superar, são as ruas, o quiosque vermelho lá no cimo, o cego da concertina na esquina, o cheiro, a luz, as janelas, o ar do Porto. Tudo me faz sentir tão grande, tão só, mas tão Eu.

Apetece-me um cigarro. Devo pedir à amante do namorado, ou à namorada do amante da amiga?Não. Não me apetece falar e sorrir um sorriso que não é o meu. Hoje mais do que tudo não quero ver pessoas. Quero sentir as ruas e as ambiências. Hoje estou nua. Como água, só quero ruas por onde passar e deixar-me fluir.
Está na hora. Vou para o Asa, o café dos intervalos do Cambridge. Já lá não está o Senhor Álvaro, o empregado das gravatas dos Mickeys. Mas está um não sei o quê que me abraça, que me completa, e que faz deste dia, o dia seguinte.

Sunday, February 25, 2007

Milão, Agosto 2006


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Mário Cesariny




As cartas que nunca te escrevi

A Cyrano de Bergerac
Junho 2005



O S.João é o grito de uma pessoa possessa, louca de amor ou talvez apenas de dor.
Uma noite mágica. Linda.
Pela neblina da ribeira e o negro veludo do céu , viajamos até a um templo dentro de nós. E lá, nesse sítio escuro, de paredes românicas, tudo se desfaz em lágrimas humanas. E em catarse, toda a nossa dor, os pequenos fantasmas que escondemos dentro de nós, começam a suspirar no ar que respiramos, nos beijos que roubamos nas ruas estreitas, nos copos que escorregam turvos na boca que não sabe.
E assim, nesse compasso triste, vamos abrindo o corpo à noite e a alma à brisa rude do rio Douro.
Pouco a pouco, o templo volta a erguer-se, a D.Luís sorri em arcos de luz e as gaivotas,no céu escuro, acenam-nos em piruetas de sonho.
Devagar, a noite vai caindo nos nossos ombros e a manhã surge na nossa boca.

Junho 2006
Um ano passou...
Agora,
olhando sozinha o rio, vejo sombras de asas no lugar dos teus braços, vejo o teu sorriso rasgar-se no vento, e vejo nos gatos que passeiam nos telhados o teu perfil melancólico.
Vejo-me também a mim reflectida na água de prata
Sabes, acho que a minha sombra cresceu. Estou maior em desejos e vontades.. Os meus olhos de menina já não temem uns olhos de gigante como os teus. Porque agora sou tão grande como tu. Maior ainda, porque também o meu coração cresceu e tornou-se muito maior que o teu. Maior, porque posso amar-te sem te ver, posso amar-te sem te tocar, porque posso amar-te mesmo sabendo que não me amas.
É triste a paisagem sem ti. Mas como me ensinaste, “new rains, new loves”.Magia ou não, isso aconteceu de facto. Agradeço-te por isso. Por teres chegado para me mostrares que a beleza da vida está no milagre de vermos a chuva cair, no milagre de nos envolvermos com alguém impossível, no milagre de ver sombras de gaivotas, no milagre de ver o dia nascer, no milgre de acreditar no amor.

Post Scriptum- Pena que já não vejas mais o que eu vejo. Mas obrigada por me teres feito ver o que vi há um ano atrás. E vou ver para sempre.

Sunday, February 18, 2007

Quando perdi a carteira e acabei a cantar Space Cowboy

Sábado, chuvoso, triste, pensamentos, sentimentos contraditórios, vontades, frio, calor....bah!...Pano de fundo de um belo dia de azar. Saio para me inscrever no ginásio.Optimo. Ver gente fútil, estar numa piscina de água quente, flutuar na ilusão de estar em Veneza completamente longe de tudo, é melhor ke tudo num dia frio e cinzento. Eis que a tragédia, prefiro dizer tragicomédia, e em frances porque tem mais pinta, tragicomédie, começa....Estou já no metro, a correr a chuva, sim eu sei, "new rains, new loves", mas nesse instante os meus instintos eram mais alimentares ke outra koisa e aquele cheiro irresistível do pão quente do Marquês...hm....ok...Depois, 3ºacto, consumou-se a tragédia: a minha carteira desaparece, com tudo e exactamente tudo, bi, passe, cartao recentemente tirado do ginasio, 2oeuros, cartao de credtito, 2fotografias antigas, o nº do nib, enfim...a minha vida resumiu-se a uma carteira...cor-de rosa!ah, un petit detaille, em francês fika mais subliminar(subliminar nao sublime, o proff de psico dava-me um 10,1 se visse isso), nem se quer dei conta da falta...Não estou para pormenores que so à Agatha Christie e aos homenzinhos com medo da vidase põem a ler para dizer ke sao fortes não têm medo de nada. Entendam-se!

Para tudo ser ainda mais niilista, falta ainda dizer que uma amiga dakelas do tempo da guerra(= de ha muito tempo, entre o Cambridge e a doidice maravilhosa dos 18anos)decide fazer-me uma visita surpresa....Ah, e foi aí, quando descia para entrar no carro, que me apercebi que não tinha carteira e que portanto estava literalamente dans la belle merde, para não ser tão abjecta.Mas-...Que felicidades...Conto-lhe a minha tragédia e ela desata a rir-se e diz-me: "como nos velhos tempos, não mudaste nada...."Pode parecer estranho, mas foi a melhor coisa que ouvi nos últimos 4dias. E maravilha, dou por mim a cantar Space cowboy , a sonhar já com uma bela cerveja, e a desejar que tudo o mais vá para o inferno.

Friday, February 16, 2007

Quando choves

Póvoa,Agosto2005

Quando choves


O teu riso de ouro
Continua a troar cá dentro,
Cócegas enormes na alma.
Os teus olhos, dois Mundos em órbita,
Parecem estar ainda nos meus dedos.
Vejo-te também de joelhos,
A pedir-me em casamento.
Sempre esse pedido,
Quando o medo de partir,
Aparecia negro, com uma nuvem.
Está a chover,
Grossas pingas entram pela roupa
Arrepiam-me nesta viagem.

Um tango de mim sem ti
E de ti sem mim.
Quando foi o fim?
Foi Quando me disseste “uma rosa picou-me o dedo”?
Sangrei tanto nessa altura....
Há uns dias li um poeta espanhol ,
Que dizia "há anos do passado Que são como uma frase riscada"[1].
Não há desculpas para o amor.
Se fugi, se não tive coragem,
Se fiz de ti um segredo
(ainda que o mais bonito do mundo)
Foi porque te amei,
E cega andei errante,
Sem saber que também me amavas.

Não sei tirar o risco sobre a frase.
Será mais fácil desenhar palavras novas.
O Presente doi com a tua lembrança,
Como a chuva sobre os lábios,
Lembra-me os teus beijos...


[1] “Abelardo Linares in Trípiticos Espanhóis, “A Sombra”

No teu peito o Mar

Foto: FC Cabo Verde, Santa Maria, Sal



No teu peito o Mar


Branco e sereno,
O teu peito.
Nuvens húmidas,
Em que afundo o medo
E me tiro ao sonho
De ir além mar.

Na tua calma,
Encontro a
sensata
Insensatez
De seres doce
E não saberes.

Na minha insensatez,
Descubro a vontade
De ser Primavera,
Despir-me do frio
E dar-te todas
As borboletas
Que tenho dentro
De mim.



Na maré mais alta,
A tua boca sobe
E é flor,
Espuma que bebo
Com toda a sede
De te querer.

No teu peito o mar.
A água
Em que hoje me deito.

Sartre e eu


Trabalho para Design- A existência

Thursday, February 8, 2007

A Luz do Porto



A Luz do Porto





Conhecida pelo seu brilho de pérola , a luz de Lisboa é já um símbolo incontestável da dona e senhora do país. Não esconde o seu desejo divino de transcendência. Afinal, carrega em si o fatum de ser filha da capital. Prova disso é o Tejo no seu largo espelho reflector.Aos alfacinhas cabe o papel de guardiões: narcísicos na contemplação do rio, esquecem-se de olhar mais além.
O Porto também tem a sua luz. Os guardiões da luz de Lisboa, apoiados na sua bengala, decidiram catalogar a Invicta com os termos “chuvosa” e “escura”. Palavras que se escondem no guarda-chuva invejoso da capital. Palavras que são como bátegas, daquelas que vêm de rompante e desaparecem com o sol que pinta de bronze as margens do Douro. E é essa a luz que experimento quando me perco neste pensamento, quando percorro a Mouzinho da Silveira até à ribeira , quando atravesso os jardins do Palácio e me sento num banco vermelho e vejo, pela fresta dos velhos chorões, a luz mesclada de pequenos fios de ouro que dá ao Porto a sua névoa misteriosa. Não, acalmem-se os senhores de Belém, já com os seus bastões a defender a legitimidade da sua luz..A Luz da velha Invicta é muito diferente e não pretende ser protagonista.. Vale a pena parar na Ribeira só para a ver dançar no rio Douro. Não é uma luz aberta num leque de 180º, nem de tons cálidos e ascendentes como o rosto da virgem Maria.Não é também da mesma tonalidade lunar que ofusca as estrelas lá em cima.Como é então? É uma luz que encerra em si o tempo, as histórias do Porto na sua idade de oiro e no seu retrocesso,das invasões napoleónicas, do comércio do vinho do Porto à revolução liberal,é a vida de uma cidade que esmorece na cor e ganha encanto na beleza que conserva de outros dias. Bebe-se como um bom Porto servido por uma pessoa que nos é querida. Daí ter que ser necessariamente mais rude, mais castanha, mais insistente.Tal como o é a sua gente: de alma ferida, mas com os braços e a voz levantados para defender o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Um povo de pessoas simples que sorriem com rugas, sacos nas mãos e olhos de amor. Pessoas que nada têm a ver com as mil e uma crónicas sobre o Porto e a sua crise económica, falta de investimentos ou desertificação. São pessoas que respondem com um sotaque forte e agreste a todas as vozes que tentam derrubar o castelo de sonhos e luta em que a Invicta se construiu.


Não, guardiões da Luz Branca, não me esqueci de vocês. Falta revelar a última grande característica da luz do Porto.. Caros senhores, a principal grande diferença das nossas luzes não se prende já com a estética, história ou filosofia de um povo, mas sim com a atitude de quem se expõe à luz. A luz branca da capital incide nos olhos, é tal o ângulo da sua abertura que antes mesmo de a sabermos, já fechamos os olhos.É certo que é envolvente,bastante física, mas perde todo o encanto quando se entrega assim de bandeja.
A Luz do Porto não. É mais recatada.Escondida nas manhãs de nevoeiro, chega até nós nos passos tímidos de uma menina a pedir um beijo. .É uma luz que vem de dentro.Incide directamente no coração. Só depois fechamos os olhos.

Wednesday, February 7, 2007

Foto: FC

Publicidade- Metro, Londres

Wednesday, January 31, 2007








O nome da rosa











Tenho o Realismo como maior ideal. Ideal, isso mesmo. Um ideal é a expressão de uma vontade impossível. Mesmo quando tiramos uma fotografia amadoristicamente, sem querer escolhemos um ângulo, um dado enquadramento. Isso é o chamado trompe d'oeil, usado pelos pintores no renascimento para dar a noção de uma tridimensionalidade.


Gosto desta fotografia porque embora não real-não existe o preto e branco!- consegue transmitir a ideia de uma emoção do passado








Póvoa do Varzim- Junho 2005

Último adeus