Sunday, May 24, 2015

Guarda-alegria


FOTO: @notjustaguru | Direitos Reservados

Lembro-me daquela tarde de início de Junho em Serralves. O verão tímido do Porto despontava nos olhos das crianças, na chuva orvalhada de S.João, na música misturada com risos, nas flores e nos namorados saídos de hibernação,  Entre a confusão de gente, finos e cumprimentos circunstanciais, apareceste tu,  com o teu sorriso forasteiro, vindo da terra do nunca.  Começou a chover e lembro-me, não sei porque diabo,  fui dar-te o braço para partilhar contigo um guarda-chuva. A sensação de dar-te o braço foi naquele momento maravilhosa, porque tu pareceste-me o rapaz mais doce e genuíno à face da terra. O mais curioso, é que não sabia nada de ti, e não me importava.  Gostei de me rir contigo, de braço dado, com um guarda-chuva que não me lembro se era meu e teu, mas ainda bem que existiu.

Depois não me recordo de mais nenhum momento contigo naquela tarde, nem depois disso.
Mas lembro-me do teu braço e do guarda-chuva e de uma espontânea alegria que trouxeste à minha paixão congelada... Foi um momento. E só um momento. Um passeio feliz depois de chuva.
Mais tarde quando ouvia o teu nome na boca de alguém, sempre associei ao rapaz do guarda-chuva,  de quem pouco sabia, que trouxe a alegria tímida do Verão.

Bendita chuva.

Sunday, March 22, 2015

Amor Casio.

O relógio marca as 21:29. Dispara o seu fluxo amarelo, no fundo cinzento do teu  casio azul.  Depois de um jantar de semana, em que se falaram dos problemas banais com o chefe ainda mais banal, da falta de sensibilidade das pessoas no trânsito, da falta de dinheiro, de X que se casou com Y, e da Z que que deixou  W, chegamos aquele ponto de vazio, entre o pedir a conta e um bocejo.

O nosso subamor é exatamente como um relógio casio, azul e letras amarelas: só funciona se houver jantares, pessoas à nossa volta de quem falar e maldizer, se houver um trabalho, ou aborrecido ou super excitante.  Não importa. Desde que dê para preencher os espaços vazios em que seria suposto haver silêncios e olhares de cumplicidade e não perguntas que parecem cimento atirado à parede.

Depois desse jantar desenxabido com uma pessoa que não tenho muito bem a certeza se sabe que faço anos amanhã, ponho-me a pensar no relógio de corda do meu avô. Recupero da memória o relógio acobreado, com o vidro fosco e os  longos ponteiros de prata. Daqueles de usar no bolso, com uma corrente, bem clássico. Penso que os corações das pessoas deviam ser todos relógios de corda. . De vez em quando iam à faca para ser consertados pela mão de um relojoeiro. Manualmente, sem pilhas, à moda antiga. Chegaria um dia em que deixariam de funcionar tão bem, mas durariam muitos anos, com som: palavras, amor, vida.

Ou se tivessem sorte e fosse bem cuidado, viveriam uma vida feliz, cheia de lustro,  como um feliz relógio de parede.Infelizmente ou felizmente, acho que herdei do meu avó um maldito coração de corda que não condiz com o teu casio azul.


Wednesday, May 22, 2013

E depois do Adeus.

Passou-se mais de um ano e meio desde que deixei de escrever. A poesia ficou algures entalada num lugar escuro do meu coração, como se quisesse falar, mas não pudesse. Viveu ao rubro uma paixão daquelas sem razão, que nos tira o controlo de nós. Em resumo: Passei muito tempo entretida a dar corda a um amor de mentira, um monólogo-amor. Isso existe?

 E  Depois do Adeus, tenho a certeza que inevitavelmente alguma coisa de nós fica por quem passamos. Desta forma conseguimos equilibrar o peso da nossa alma, quando não é mais o que damos do que aquilo que recebemos. Disse algures neste blogue que o amor é uma roleta russa.
É um pouco assim: umas vezes recebemos mais, outras vezes perdemos mais. Tudo terá o seu significado.  Sei que não vou voltar a chorar a cântaros como uma adolescente e que estou preparada para ouvir dizer a verdade: não existimos, presente do indicativo. E também sei que o meu coração não vai saltar aos pulos de contentamento quando esperava atrás da tua porta. Nem vai voltar a sangrar por dentro, como no dia em que a porta se fechou de vez.

 Depois do Adeus. Sei que parte de mim ficou contigo, nesse lugar estranho a que nunca demos um nome.   E talvez por nunca ter sido nomeado, é mais difícil de apagar, porque vivia feliz dentro de mim. Nesse lugar onde eu era D.Quixote e te via como um príncipe encantado. Devia ter dado ouvidos ao Sancho....Esse lugar onde eu nascia e morria diariamente, sem que tu desses conta, uma vez que não sentias nem de perto a vertigem que eu sentia quando te via.

Dizem que um pedacinho de nós fica  em cada amor que vivemos, quanto maior for a intensidade. Ah e eu gostei tanto de ti. Sem que houvessem palavras e juras de amor, sem que houvesse nada, estava disposta a ser tua.  Mas será que de tanto bater o meu coração parou? Não, depois do adeus, tenho de novo amores para viver, tristezas, alegrias, confusões de vez em quando..Mas sei que não se volta a repetir a coincidência mais feliz e estranha da minha vida: Ter-te conhecido.

 Depois do Adeus. Sei que a saudade não é exatamente querer viver de novo a mesma paixão que nos dilacerou por dentro até às entranhas. Sentir saudade é querer contar uma história, uma história bonita a alguém, uma história sem princípio, nem fim. Um Verão eternamente azul. E depois do adeus, estou aqui de novo. Mais realista. Mais calejada? Pode ser. Sou mais eu. Mas acabaram-se as ilusões, para que o amor volte a ser um lugar possível.

 Adeus Trompedoeil!




Tuesday, September 4, 2012

Por todo o lado

Foto: FC


Por todo o lado,

A Luz do teu corpo,
Quando percorro
As ruas estreitas do Porto.

Por todo o lado,

Pequeno Rabelo enamorado
Nome de grego fugidio,
Suspiro transformado em riso.

Por todo o lado,

A tua boca em chama sobre a Sé,
Ferida ao entardecer
Lábios de flor a morrer

Por todo o lado,

Do Alfa , Amor,
Ao Ómega, dor,
O teu nome.

Por todo o lado.

Sunday, October 23, 2011

Porto (da minha alma)

Há dias em que não te entendo.
És frio e insensível como a névoa que se abate sobre ti.
E mágico ao mesmo tempo.
És difícil de perceber, fechado e misterioso como um gato.
As tuas ruas estreitas contam-me segredos e murmuram beijos
Que não podemos ver nem tocar.
Tudo em ti é passado, história e amor.
O teu rio tem a cor da sombra e da luz,
Um olhar cinzento, mas doce e belo ao mesmo tempo.
Sobre ti,
A ponte D.Luís estremece como um coração partido.
Nas vielas ouvem-se palavrões para dar graça à tristeza
E transformar pedaços de nada em poesia.
O teu coração é feito de granito: seguro e invicto.
Uma coluna fria que esconde um pulsar infinito.
Quase sempre não te entendo,
Mas é por isso que nunca te esqueço.
Para onde quer que eu vá.

Thursday, October 6, 2011

O Paradoxo do gostar.

Gosto de gostar.

Gosto de sentir na barriga a sensação de mil borboletas esvoaçarem dentro de mim.

Gosto de viver a ansiedade doentia de o ver, de o beijar, de o esperar.

Com um desejo louco e desajeitado de um querer sem explicação.

Não espero gostar. Simplesmente apaixono-me por algo que não sei muito bem definir e sei que gosto.

É simples como a matemática.

Ou como o bater repentino da Primavera.

A encher de vermelho, rosa e branco os dias que antes eram tão iguais.

É isso: gosto de gostar e pronto.

O objecto do amor talvez seja aquele que assume o papel menor.

O importante é sentir a vertigem do bate-bate que repica no meio do peito.

Gostar corrosiva e inteiramente. Sem esperar nada em troca.

Será isto a paixão afinal?

Ou apenas um sentimento, passageiro como uma brisa inesperada numa noite quente de Agosto?

Talvez seja. Mas essa brisa, foi como uma janela, por onde saltei, viajei por lugares incrivéis e voltei a cair.

Até à próxima Primavera.

Saturday, September 3, 2011

Primeiro Amor



O primeiro amor nunca se esquece. É bonito, puro, platónico, idealista, irreal e surreal. Feito de exageros, memórias, canções e ultra romantismo. Amores proibidos pela distância. Calados pelo tempo. O primeiro amor são olhos lacrimejantes e sorrisos intensos.É a cumplicidade de um lugar secreto, de uma promessa para a vida toda.Um amor secreto, que queima por dentro.

São cartas, palavras-que-nunca-dissemos-a-mais-ninguém, beijos roubados numa despedida apressada.O primeiro amor é o descobrir da vida, o despertar dos sentidos.O primeiro amor é a chama que se conserva como as rosas vermelhas do Walt Disney. Contudo, anos mais tarde, quando voltamos a abrir o baú mágico da nosssa adolescência, descobrimos que essa chama não é mais que cinza. Cinza da menina ou menino que fomos.Porque entretanto, os nossos braços deixaram de ter espaço nos bolsos para crescerem e querem voar, voar, viver a plenitude da liberdade e da paixão, conhecer novas paragens e enfim, dá-se a difícil, cruel e inevitável metamorfose da menina e do menino para homem e para mulher.

Esta retórica toda para dizer que o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo e o infinito dos amores serão seguramente sempre mais vividos, mais reais, e apesar de menos mágicos, será esse amor do presente que nos vai manter vivos, com uma chama tão intensa como o amor pela vida e por nós mesmos. Porque o primeiro amor não é mais que o início de uma longa e eterna caminhada. Obrigada por tudo.